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País - Editorial

No dizer de Mister Trump

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Nem todos preferem levar na devida conta os pronunciamentos do presidente Trump, sendo nisso animados até por muitos que privam de sua intimidade; sem que faltem os que veem nele atributos suficientes para considerá-lo um ator a serviço da política. Sendo ou não autêntica essa marca do temperamento do homem que dirige a mais importante potência do mundo, não é prudente desconsiderar o discurso que ele acaba de proferir na Organização das Nações Unidas. Certamente algumas chancelarias já estão cuidando de uma análise mais cuidadosa, antes de firmar qualquer posição a respeito. Até que ponto naquela fala teria revelado vagas intenções ou estaria fincando pé na realidade? Ou um pouco de cada coisa?
Improvisando, com recheio de frases colhidas no instantâneo, a oração presidencial não deixou de sinalizar alguns aspectos que demonstram a intenção de fortalecer o prestígio interno do seu governo, antes de concessões externas; tudo com atitudes que levariam a Casa Branca a não dar ao mundo mais do que seus líderes acham que os norte-americanos devem e podem dar. Azar do mundo, talvez no íntimo tenha pensado Trump, ao propor que os Estados Unidos olhem mais para o próprio umbigo.
Explícito, o presidente disse à comunidade internacional que haverá um permanente cuidado na avaliação do emprego de recursos no exterior, que se tornariam mais técnicos e políticos; mais seletivos, para contemplar apenas os aliados e os próximos muito bem alinhados, pouco ou nada para os opositores ou neutros. O que, em dito popular, seria o seguinte: ideal é que os meus amigos sejam inimigos dos meus inimigos. Que cada qual cuide de ser patriota na sua própria pátria, ditou sem rodeios.
Nota-se, dependendo de reflexão mais cuidadosa sobre o que foi dito na sede das Nações Unidas, uma dose de intolerância em relação aos países eventualmente discordantes. O preço a pagar por essa cartada, Mister Trump não parece incomodar-se, mesmo porque seria um risco em diferentes graus; menor em se tratando de países menos potentes. De fato, há uma graduação, e Washington tem muitos amigos, mas não contendores em menor número. Porém, pragmático, o que parece importar é para que lado tende a balança.
Outro detalhe a ponderar, que não foge da linha de ameaças, não tão veladas, é que uma eventual participação dos Estados Undos na solução das dificuldades dos demais povos sempre estaria sujeita à avaliação criteriosa quanto à conduta dos governos, o que, é verdade, algumas vezes se fez discretamente, mas agora com o estilo caubói. Antes, insiste Trump, saber se vale a pena ajudar; se suas lideranças estão identificadas com as linhas do Departamento de Estado. Quanto a esse ítem, a clareza pareceu bastante. O que poderia significar o fim da tolerância com ideologias e políticas não claramente coincidentes. Não faltou quem, à primeira hora, sentisse aí uma advertência aos países que, a partir de agora, estão em vias de procedimentos eleitorais.
Não seria admissível, como se recomendou, precipitar interpretações sobre o discurso do presidente americano frente à assembleia dos povos. Cuidados sim, porque, queiramos ou não, ele tem um acervo de poderes e estratégias suficientes para mexer com as estruturas da política internacional. Justo que se proceda a um melhor estudo, antes que se adotem conclusões definitivas. O que não impede de antecipar: foi um pronunciamento repleto de recados. Quem tem ouvidos que ouça, como se lê nos Evangelhos.



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