Jornal do Brasil

País - Editorial

A primeira definição

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Garantem os números e o tempo, habitualmente caminhando juntos, que o segundo turno já se revela inevitável para a eleição do novo presidente da República, o que transfere a disputa final para o dia 28 de outubro. Enfadonho e dispendioso para alguns, dispensável para outros, não se pode negar-lhe, conscientemente, o viés democrático que nele se confirma e se consolida, algo inatingível na eleição restrita ao primeiro turno, porque deste são expulsos os eleitores que optaram pelos candidatos derrotados, que serão nove. Fica, portanto, para o último domingo do mês o fim do mistério, salvo surpresas, que neste ano já se revelaram fartas.
Ainda que prevaleça algum descontentamento com o modelo, que manda conferir e atestar o prestígio dos dois anteriormente mais votados, é importante avaliar suas virtudes, que começam por destruir, com facilidade, o mais comum entre os argumentos dos críticos, isto é, a questão dos novos gastos despendidos em alianças, viagens e propaganda. Pois é investimento que significa quase nada, se comparado com o que consomem outros ralos da política brasileira.
A bem dizer, nunca é demais o que se aplica com o objetivo de aferir, democraticamente, as aspirações populares, mormente quando o que se deseja é escolher o comandante geral. Uma eleição é obra permanente, não pode ficar parada; é caminho e horizonte.
Quando chega o momento do segundo turno – eis outro entre os predicados – voltam às urnas não apenas os eleitores antes bem sucedidos, os que deram apoio aos dois não eliminados. As urnas, então, se abrem para todos, não expurga os que fracassaram em suas preferências iniciais, que serão manifestadas no dia 7. Já seria o bastante para justificá-las em uma nova abertura.
Não é difícil perceber que o pleito em turno único seria cruel; quando experimentado em outras oportunidades, deixou exposta a fratura do excludente, expulsou do processo milhões que “perderam” o voto, dando-lhes por encerrada sua participação. E voltaria a cometer o pecado elitizante, restringindo a decisão final aos eleitores privilegiados que ficaram com a dupla de candidatos de melhores resultados no primeiro tempo do jogo.
Em seguida, com idêntica relevância, a segunda rodada de votação levanta a bandeira indispensável da maioria, aquela que tem o mérito de consagrar o mandato e fortalecê-lo. Conhecido o derradeiro resultado, que no caso atual se dará no dia 28, afasta-se o fantasma de uma eleição de minoritários; e com ele uma crise política inevitável. Ficou como exemplo, entre os mais sensíveis neste particular, o tumulto das últimas semanas de 1955, quando Juscelino se elegeu com apenas 36% dos votos, muito aquém da maioria, excitando a Oposição no questionamento da validade. Naquele ano, como em qualquer época, é sabido que a turbulência das crises afeta e desestabiliza as instituições.
Portanto, saúde e longa vida ao segundo turno.
Passando o dia 7, sendo pouco prováveis outras grandes surpresas que desautorizem as pesquisas e os indícios, convoca-se ao alinhamento, em dois polos, as forças políticas atuantes. Ampliam-se, igualmente – é preciso considerar – as responsabilidades dos dois finalistas, não mais com direito a se restringirem aos projetos e discursos que os alçaram ao teste seguinte. Porque já então aos dois haverá de pesar a missão de juntar e pacificar, para uma nova escolha, o imenso eleitorado que pouco antes divergia e, em muitos casos, até se hostilizava.



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