O exercício do poder

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Após a queda do Muro de Berlim, Vaclav Ravel fez votos pela existência de grupos de convicções, mas não para que eles legislassem ou impusessem seus pontos de vista a todos. O pluralismo vive e prospera do confronto dessas convicções, porém vegeta e definha com seu enfraquecimento e sua degenerescência. O monopólio uniformiza, e a concorrência diversifica.

Amplificação de opiniões não é o mesmo que debate. Nos dias que correm, se está longe do encontro de cidadãos em busca de conciliação de interesses mediante debate e reflexão. Quanto maior for a ausência de convicções compartilhadas, quanto maior estiver disseminada uma espécie de indiferença desiludida, estará criado terreno propício a toda sorte de influências.

Todo mundo continua a viver uma vida local; mas as transformações do lugar, a intrusão da distância nas atividades locais, a centralidade da experiência transmitida pela mídia mudam radicalmente o que o mundo é na realidade. Todos os indivíduos incorporam seletivamente de maneira ativa, ainda que nem sempre de maneira consciente, elementos dessa experiência.

O pluralismo é a marca da moderna sociedade democrática. Contudo, do pluralismo que a caracteriza para o relativismo que a ameaça vai um passo, que se dá rapidamente hoje. Longe de ser o principio organizador da vida em sociedade, a política aparece como uma construção artificial, bem pouco adaptada a solucionar os problemas práticos do mundo contemporâneo.

Frente ao crescimento do número de internações e óbitos, na mais grave crise sanitária em cem anos, vemos os limites à ação humanitária, que serve de álibi à impotência política. Nada mais intolerável atualmente do que o conflito de interesses entre as esferas de governo, que criam alianças provisórias, apoiadas nas competências mobilizadas para situações pontuais.

Fato é que a lógica da difusão do poder se revela inoperante quando é preciso enfrentar uma grave crise - como a pandemia do novo coronavírus -, e transformar o complexo em simples.

O exercício do poder numa moderna sociedade organizada em rede, de incerta evidência e de contornos em incessante redefinição, está a exigir do presidente efetiva disposição à crítica.

Engenheiro, é autor de "Por Inteiro" (Editora Multifoco, 2019)