Um país confortável

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Se ainda tivéssemos dúvidas sobre o momento particularmente desonroso a manchar a sociedade brasileira da mais profunda ignomínia nas relações entre compatriotas, a semana passada ficará marcada em nossas mentes e corações como o apogeu da incivilidade.

Uma médica de competência inquestionável viu-se levada a um encontro com as maiores autoridades da República como possível candidata ao cargo de ministra da Saúde no momento em que os óbitos pela Peste atingem a impensável contagem de mais de 2.000 brasileiros por dia.

Deste encontro resultou, nas próprias palavras da candidata, o reconhecimento de uma insuperável divergência técnica entre ela e o presidente da República. A partir deste evento corriqueiro, abriram-se as torneiras da calúnia, do ódio e do linchamento de caráter com ramificações sádicas a espirrar lama por sua vida particular e atemorizar sua família e a ela própria com ameaças de violência física e até mesmo de morte.

Menos de 48 horas depois, o presidente da República queixou-se serem as críticas sobre a condução da política de saúde no Brasil clara indicação de uma larvar conspiração para enfraquecê-lo politicamente e, talvez, derrubá-lo do poder.

Em apoio a seus temores, o presidente assinalava as medidas de afastamento social implementadas por vários governadores da Federação a tangenciar medidas de competência exclusiva do presidente da República tais como o toque de recolher, cabível, segundo Sua Excelência, apenas no instituto do Estado de Sítio.

Os dois eventos, tanto o linchamento virtual da médica quanto os reclamos do presidente da República revelam uma situação de desfibração no tecido social brasileiro certamente tributária da falência cotidiana dos serviços de saúde nos estados e municípios a resultar no crescente e assustador número de óbitos.

São inumeráveis as teorias sociológicas e até mesmo psiquiátricas que poderiam se apresentar como passíveis de oferecer explicações para os fenômenos a nos isolar como país enredado num cipoal de contradições, visíveis com perplexidade por nações a nos estudar de longe e, com mais preocupação ainda, por nossos vizinhos a temer a expansão incontrolável do vírus e de suas cepas.

Estamos portanto naquela situação em que se torna imperativo seguir o conselho de um arguto político brasileiro diante de situações intratáveis: “as preliminares, depois”. Pura sabedoria, porque nesta hora buscar culpados ou heróis nos desviaria da tarefa principal e inadiável de encontrar solução permanente e rápida para a mortandade escabrosa a nos distinguir negativamente como a mais chocante no mundo, em termos proporcionais a nossa população e à população mundial.

O presidente da República teria manifestado interesse em chamar reunião dos membros do Executivo, do Legislativo e do Judiciário e, suponho e espero, dos meios científicos deste país para uma possível harmonização e unificação na condução da politica de salvação nacional, porque é disto que se trata.

Acedamos portanto ao convite presidencial e nos sentemos à mesa como se realmente fôssemos aquele “homem cordial “ de que tanto nos orgulhamos como qualificativo dos brasileiros. (Também não convém discutir esta preliminar, bem entendido).

O leitor atento terá notado que falei acima “política de salvação nacional” sem restringir seu escopo a aspectos de saúde pública ou econômicos. Isto porque entendo ser fator preliminar e altamente impertinente pensar em inflação ou déficit fiscal nesta hora. O que importa é salvar a população brasileira, alimentar os que precisem de recursos e vacinar, rápida e imediatamente, pelo menos 70 % da população brasileira até, digamos, outubro.

Desta forma, a reunião do presidente da República deveria produzir um decálogo de medidas imediatas com vasta e generosa abertura dos cofres públicos. Uma política suprapartidária e sobretudo refratária a medidas de austeridade claramente anti-sociais e pró- mortandade. Este seria o único plano de governo de um povo cristão. Como, a propósito, foi o de Israel e dos Estados Unidos da América liberto de seu psicopata-vigarista-mentiroso contumaz e comprovado fraudador do imposto de renda.

Em 2022, vacinados e finalmente livres, poderemos abraçar nossos parentes; chorar por aqueles que se foram e aí sim voltar às urnas conscientes de nossa importância como nação e de nossa solidariedade como povo. Ambas a reconstruir.

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Em tempo: Este artigo já estava escrito quando o Senado Federal tornou pública a carta do presidente do Senado à vice-presidente e sua homóloga na estrutura do poder americano. A carta merece respeito e deve ser saudada por todos os que buscamos a rápida e total vacinação do povo brasileiro. Sua linguagem mantém a dignidade do povo a quem representa. Tomo a liberdade de propor duas iniciativas: a) manifestada a eventual disposição de Kamala Harris de examinar o assunto, Rodrigo Pacheco deveria enviar pequena delegação de cientistas brasileiros para viabilizar meios e modos de se acelerar um acordo; b) por razões difíceis de explicar aqui, suponho que os americanos veriam com maior possibilidade de êxito a assinatura de um mecanismo pelo qual os americanos antecipariam de seus estoques quantidades de vacinas da Pfizer e da Johnson equivalentes às encomendadas pelo Brasil com entregas previstas para maio em diante. Seria portanto um acordo de mera antecipação de entrega de vacinas com a garantia do governo brasileiro de redirecionar através dos laboratórios suas compras para os Estados Unidos. Não custa tentar. O importante é começar a vacinar dois milhões de brasileiros/dia.

*Embaixador aposentado

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