Eleitores ou Torcedores

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Que o Brasil é o país do futebol a maioria de nós há de concordar. Muito embora não tenhamos honrado esse título nas últimas Copas do Mundo, o povo brasileiro continua amando as “peladas” de fim de semana, os jogos de futebol na TV, a Taça Libertadores, e tudo mais. É bem verdade que as chamadas “peladas” têm sido substituídas por jogos virtuais nos mais variados aplicativos por conta da pandemia, mas quando passar essa fase vermelha o que ficará é a conhecida versão híbrida, teremos as peladas acrescidas dos games, dificilmente um ou outro.

No mundo corporativo entendemos que somar as alternativas é melhor do que optar por uma delas, quando optamos diminuímos as possibilidades e enfraquecemos as vias de acertos. Estudos já comprovam os ganhos por exemplo de criatividade e velocidade para resoluções de problemas em equipes diversas. A razão é bem óbvia, pessoas que olham o mundo por diferentes prismas, por diferentes paradigmas, quando postas juntas em um determinado cenário o campo de visão é expandido.

Não que seja mais fácil gerenciar esse tipo de equipe, mas sem dúvida é mais enriquecedor e compensador. Pena que na prática muitas vezes preferimos o homogêneo. Em uma espécie de narcisismo preferimos o que parece com a gente, o igual, o que não dá trabalho para explicar, o que não nos tira da zona de conforto. Mas será que devemos considerar conforto a falta de crescimento e troca gerada por esses espaços?

Olhando para o casamento, casar com alguém que pensa exatamente igual a nós não poderia ser entediante? Obviamente precisamos ter afinidades, e muitas, mas não necessariamente sermos iguais em tudo.

A busca de nós mesmos no outro ou a busca da nossa cópia é algo sério quando refletimos onde essa estrada, se vivida exacerbadamente, pode nos levar, ou para onde pode levar uma nação. Como não é possível sermos todos iguais no que tange a visão de mundo, dons e talentos, ideias, temperamento, atitudes, e essa lista beira o infinito, provavelmente o que nasce dessa busca incessante é o ódio.
Do ódio ao diferente, surgem várias nomenclaturas: xenofobia, xenofóbico, homofóbico, feminicida, “hate speech”, e também essa lista não para...

O que se faz necessário de fato é dar um basta nessas rivalidades fundamentadas pelas diferenças, todos nós saímos perdendo. Se olharmos para a política brasileira, com a notícia da absolvição do ex-presidente Lula referente às condenações na Lava-Jato, de novo saímos de um cenário onde somos eleitores responsáveis por escolher os nossos representantes para a posição de torcedores de um time. Teremos os anti-Lula x os anti-Bolsonaro, e o que o Brasil ganha com isso?

Estamos enfrentando uma pandemia sem precedentes onde oscilamos entre o segundo e o terceiro lugar no ranking mundial com maior número de vítimas, os investimentos estão estagnados desde o início da década de 80, o câmbio desvalorizado, vivemos de alimentar o mundo, mais especificamente a China, o que convenhamos é o mesmo modelo desde o século XIX para não dizer anterior a ele. Nossa produtividade é fraca, já o risco Brasil é fortíssimo, ou melhor, é alto. As perdas em serviços são irreparáveis, pois o produto que deixamos de vender, pode ser que possamos vender no futuro, mas quanto aos serviços que não foram realizados, não há como voltar no tempo.

E por falar em tempo, a desigualdade social é crônica e as reformas fiscal e administrativa me parecem contos infantis que alegram a alma com suas promessas de felicidade e sucesso, mas estão longe da vida real. Isso tudo sem contar com a falta de Projeto, a nação não sabe para onde está indo, o único projeto é a próxima eleição.

O que nos espera? Um Governo que fará de tudo para “agradar o povo” – populista - entendendo que assim vai agradar a Deus? A agroindústria, por melhor que seja, não vai conseguir gerar empregos para 210 milhões de brasileiros. Os empregos intitulados informais dependem dos formais para sobreviver. Com a queda dos formais, despencam os informais e nos acostumamos com um número enorme de pessoas com baixíssima renda ou sem renda. Os programas de transferência de renda são paliativos, não deveriam ser vistos como soluções definitivas.

Conectivo de conclusão - Como já disse Martin Luther King Jr. na década de 50, é preciso fazer uma resistência pacífica contra o ódio e a injustiça. Que ao invés de escolhermos um “time” possamos tomar atitudes coerentes que ajudem o Brasil a fazer uma boa gestão de suas riquezas, aumentando a eficiência, a produtividade, diminuindo as desigualdades e consequentemente fazendo ressurgir os investimentos.
Que haja uma terceira via para todos nós, lembrando novamente de Martin Luther King Jr. ao escrever em um dos seus livros que ódio é escuridão e amor é luz, mais ódio só aumenta a escuridão.

Cristiana Aguiar. Economista. Sócia -fundadora da Consultoria Jeito Certo. Conselheira no Conselho Empresarial de Governança e Compliance da ACRJ. Linkedin.