Mulheres e estereótipos

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Eu acredito, de verdade, que quando começamos o ano lendo um bom livro, passamos todos os dias dos próximos doze meses apreciando leituras de qualidade. Portanto, sigo com afinco essa superstição. O livro da vez foi presente da minha filha, que sempre me diz o que devo e o que não devo ler – não, ela não me impõe nada; apenas não me deixa perder tempo com escolhas equivocadas de obras equivocadas. Minha filha é a minha referência literária e – ao lado do irmão dela – minha certeza cotidiana de que tenho muita sorte na vida. No Natal, ela me deu o livro “A vida pela frente” (Editora Todavia), do francês Romain Gary, que o assinou com o pseudônimo de Émile Ajar. “Mãe, você precisa ler esse livro”, ela me disse. Sim, eu precisava. Todos precisam ler esse livro.

O narrador é um menino muçulmano que diz ter dez anos, mora em Paris, no bairro de Belleville, região habitada por imigrantes, filho de uma prostituta que nunca conheceu e criado por uma ex-prostituta judia, já idosa. Além de Momo, o garoto, Madame Rosa cuida de outras crianças abandonadas por mães prostitutas. O mundo de Momo é formado por prostitutas, travestis, imigrantes que vivem – e sobrevivem – ilegalmente na iluminada Paris, mas também por médicos e outros profissionais árabes, judeus e negros que ajudam os menos favorecidos. E nesse território se desenvolvem todos os afetos, raivas e medos do nosso narrador de supostos dez anos de idade.

Entre os medos e raivas que o menino carrega está o fato de ser filho de uma prostituta e ser criado por uma prostituta aposentada. “(...) filhos de putas pras pessoas direitas significavam logo cafetões, criminalidade e delinquência juvenil. Temos uma má reputação horrível entre as pessoas direitas”, afirma Momo em uma passagem do livro. Não, não há spoiler aqui; apenas uma sinopse, para que possamos refletir sobre o preconceito que determinadas mulheres carregam por toda a vida e, como se isso já não bastasse, deixam de herança para seus filhos. O romance é de 1975, mas poderia ter sido escrito no mês passado.

As falas do pequeno Momo lembram a todo momento que ele carrega a discriminação sofrida pela mãe que não conheceu e pela idosa que o cria. O menino sempre se recorda de uma fotografia que Madame Rosa lhe mostrou, de quando ela tinha quinze anos, “com uma bela cabeleira ruiva e um sorriso como se estivesse cheio de coisas boas pela frente, para onde quer que ela fosse. Me dava dor de barriga ver ela com quinze anos e depois agora, na sua situação presente”. E compara com a idosa hoje: “quase não tem mais dentes sobrando”, pouco cabelo e um corpo disforme, com um peso que a impede de subir os seis andares do edifício sem elevador que eles habitam.

E assim, enquanto acompanho as aventuras e desventuras do esperto Momo, penso nos estereótipos que perseguem e cercam todas as mulheres em todas as épocas, que o livro de Romain Gary retrata muito bem: sorriso bonito, cabelos cheios e sedosos, corpo bem feito. Uma vida direita. E no quanto esses estereótipos ocupam espaço de destaque na nossa vida e viram – muitas vezes – os objetivos principais da nossa existência. Repleta de sofrimento. Diferentes níveis e intensidades de sofrimento, mas sempre com algum sofrimento.

Por causa da minha pesquisa de mestrado, tudo o que leio me remete ao tema, que surgiu de outro livro: “A redoma de vidro”, de Sylvia Plath. E claro, como jornalista e observadora que sou, acompanho a luta diária da mulherada para ser perfeita nas redes, nas lives, na família, no trabalho, todos os dias, todas as horas. Para se encaixar nos estereótipos.

O lindo “A vida pela frente” não é sobre isso, mas o problema está lá. A nossa vida não é sobre isso, mas o problema está aqui. Vamos pensar em formas de resolvê-lo.

Lídice Leão é jornalista e mestranda em Psicologia Social pela USP, onde pesquisa o sofrimento psíquico da mulher.