A Cidadania e a intentona (3): Lições do Abismo.

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A diferença entre o vírus da Peste e Trump é o topete. Fora o topete, plastificado e colado com correga, a virulência é a mesma, a indiferença pela mortandade idêntica . A invasão do Congresso americano por supremacistas brancos e debilóides mentais, induzida e instigada descaradamente pelo Presidente da República, poderá ter surpreendido os que atribuem a Donald características de estadista moderno, mas terá confirmado definitivamente o que mais de 37 psiquiatras americanos alertavam antes mesmo de sua chegada na Casa Branca. Trump é psicopata, narcisista delirante.

Trump errou de endereço. Deixou-se confundir pelo branco do edifício e adentrou-o como Napoleão de hospício. Trump confirma o ditado popular a diferenciar o neurótico do psicótico: o primeiro faz castelos no ar, o segundo mora neles. Toda esta celeuma a buscar uma solução para afastá-lo do salão oval me parece desnecessária. Bastaria convocar um bom psiquiatra para visitá-lo e levá-lo docilmente para o hospício, com o argumento de que lá estaria sendo esperado para tomar posse como Presidente do Universo. Ou monarca da Via Láctea. Ou, em último caso, como Deus. Trump iria numa boa, fazendo planos para abolir de imediato todos os hereges a não reconhecerem sua onipotência.

Quatro anos à frente do governo dos Estados Unidos, diariamente apaparicado por sua guarda de fuzileiros navais, convidado a opinar sobre problemas irritantes desde o crescimento da China até o papelão de Guaidó na Venezuela, a frágil e narcísica personalidade trumpista fundiu. Quando se viu derrotado por oito milhões de votos nas eleições só poderia atribuir a fraude sua derrota. E tanto falou em fraude que nela passou a acreditar como verdade inabalável.

Infelizmente não será internado. Teremos sorte se chegarmos aos 20 de janeiro, sem que ele dispare um míssil em direção a Israel e telefone para seu chapa Bibi em Tel-Aviv avisando-o de que o Irã pretende invadir a terra sagrada de Jerusalém. Ou poderá no dia da posse de Biden convocar seus milicianos para explodir bombas na Avenida Pensilvania. Tudo pode acontecer, quando um narciso tem seu ego ferido.

Os Estados Unidos da América estão irreconhecíveis. Trump levou ao paroxismo forças adormecidas nos últimos quarenta anos em que a desigualdade social, o racismo e a xenofobia ressurgiram como monstros vingativos em busca da Grande América prometida por um bufão despreparado intelectual e psicologicamente para uma tarefa que exigiria tato político, reformas profundas do sistema internacional e visão de Estadista.

Trump, afeito aos holofotes das televisões, julgou que bastaria descrever a história de seu país como vítima de uma comunidade internacional predatória com impulsos destrutivos contra a sociedade dourada e mítica, contra o destino manifesto de seu povo e dedicou-se ao desmonte do sistema internacional que seu próprio país havia construído depois da Segunda Guerra.

E deu no que deu. Em pouco tempo os aliados ocidentais perceberam a inutilidade do diálogo com um despreparado e inconsequente e se foram fechando os canais de diálogo . Trump nada mais era que o bufão tonitruante incapaz de liderar a reconstrução equitativa das trocas comerciais internacionais, o redesenho do sistema financeiro francamente orgiástico e o reequilíbrio de uma globalização mundial assimétrica e, em alguns aspectos, pesadamente neocolonial.

Tudo isto a ele escapou. Assessorado por falcões áulicos, Trump aprofundou a cisão entre os Estados Unidos e a China e estimulou entre seus aliados, inclusive o Brasil, uma aderência a uma geopolítica sufocante para interesses legítimos de países sem interesse numa polaridade estilo Guerra-Fria.

Internamente pregou uma política xenófoba, hostil ao imigrante, desumana com famílias de há muito residentes nos Estados Unidos, separou mães de filhos e pretendeu construir um novo muro da vergonha entre seu país e o México. Renegociou tratados internacionais, aprofundou o desequilíbrio entre países fracos diante da economia americana. Taxou unilateralmente exportações de manufaturados brasileiros sem contrapartida alguma e encontrou em nosso governo uma leniência servil. Deu-nos apenas tapinhas nas costas, como velhos coronéis fazem com humildes e molengas cabos eleitorais do interior.

Aumentou o risco de acidente nuclear e afastou-se de acordos de desarmamento assinados por seus antecessores. Teve o desplante de tentar eliminar o sistema de proteção à saúde criado por Obama e dedicou-se a isso com o ódio que não se dedica a inimigos. Semeou o renascimento da discórdia com Cuba, conspirou para derrubar pela força governo latino-americano, desvirtuando arranjos interamericanos destinados à paz. Afastou-se de forma estrepitosa dos acordos sobre o meio ambiente e clima. E, finalmente, foi insanamente desleixado com a Pandemia a que atribuiu uma pérfida e macabra coloração chinesa. Deixou seu povo marcado por altos índices de mortalidade pelo vírus, com um negacionismo primitivo, selvagem, sociopata. Fez do luto o sentimento nacional.

Aguçou o preconceito racial nos Estados Unidos, estimulou uma caça bárbara a negros, confundiu lei e ordem com exclusão de ilicitude, incendiou cidades e bairros, promoveu descaradamente a supremacia branca, armou pesadamente bandos e milícias e fez vista grossa diante de arruaças e badernas por grupos declaradamente fascistas .

Enfim, foi o Estadista do Mal. O Estadista que deu a seu povo sangue, suor e lágrimas em tempo de paz.
Infelizmente, influenciou e mereceu a admiração de alguns chefes de governo, dentre os quais o nosso, o que nos deixa, como povo e nação, com justo temor de que por aqui se continue a nossa particular e miserável via crucis e que aqui se intente o mesmo desrespeito ao Estado Democrático de Direito. ( continuo domingo próximo)