Indiferença

..
Credit.....

O corpo alto, retangular, espelhado do edifício reflete a imagem da ambulância em frente ao hospital, suas lâmpadas giratórias acesas. O paciente está dentro do veículo, estacionado na rampa de acesso ao pronto socorro. O motorista desligou a sirene? Ou, de uns tempos para cá, vivemos meses de uma emergência surda?

Enfermeiros retiram o paciente da ambulância, sem a pressa usual de casos extremos. Talvez o sujeito na maca esteja bem. À distância, não dá para saber. Na calçada, a sombra dos galhos pelados de um pequeno ipê roxo desenha o rascunho de uma grande árvore, que invade a entrada do PS e divide a maca ao meio. O broto foi plantado meses atrás. Uma única folha pende de um dos galhos, ainda tenazes. A folha balança, conduzida pela brisa no final de tarde deste início de 2021.

Nas imediações do centro de saúde, a clientela de padarias e restaurantes não é mais a mesma. A equipe médica anda tensa e sem tempo. Um ano atrás, nos intervalos para refeições, enfermeiros e médicos se descontraíam nas mesas dos estabelecimentos. Hoje, esgotados, esses profissionais mal se cumprimentam. Na rua, de cabeça baixa, apressados, andam ao trabalho, correm ao descanso e voltam à labuta numa rotina que parece interminável.

Acompanhada do casal de filhos, uma mulher deixa o hospital. Caminha lentamente, sua mão amparada no ombro do menino, enquanto a jovem moça corre para abrir a porta do carro. O corpo cansado da mulher cai no assento. Ofegante, ela faz sinal ao rapaz para aguardar que recupere forças e levante as pernas, ainda fora do automóvel. A pressa para deixar o hospital é notória, deixar a morte para trás.

É um hospital particular. Seus pacientes, na maioria, conseguem pagar planos de saúde. Dias atrás, houve uma briga que deu até polícia. Dizem que, ao sair do hospital, um sujeito foi informado que o plano de saúde não cobria o procedimento ao qual se submetera. A discussão migrou da recepção para a delegacia.

A maioria dos brasileiros, entretanto, não tem plano de saúde. Depende do SUS. Em caso de emergência, a delegacia de polícia não é uma alternativa. E essa desigualdade econômica pode se manifestar também no acesso à vacina que previne a covid-19, pois alguns grupos particulares cogitam importar o imunizante para comercialização.

Aos gestores desses grupos de saúde, fica a sugestão: que tal se, a cada vacina vendida – certamente acompanhada de um pomposo lucro – o grupo beneficiado pela comercialização disponibilizasse um leito de hospital ao SUS, a ser utilizado para internação de pacientes com covid-19? Mais justo, não, já que a ocupação de leitos particulares certamente diminuiria?

Já é noite. O vidro espelhado do prédio mostra o hospital iluminado. É uma luz fraca. O letreiro luminoso que dá nome ao local se destaca, assim como a placa indicativa para o pronto-socorro. Um ou outro carro passa na rua. Não se vê o arbusto e sua única folha.

Começa a ventar, sinal de chuva. Mais uma tempestade de verão. Dias atrás, um aguaceiro impediu a passagem de ônibus nas vias próximas. Algumas ambulâncias disputavam espaço com os coletivos, forçavam o motor para ultrapassar o pequeno lago recém-formado no asfalto. Seus motoristas desligavam a sirene e buzinavam com insistência. Parte dos carros abria passagem. A maioria não se movia. Era possível ver a indiferença dos condutores particulares. À sua frente, celulares. Talvez lessem notícias do dia em algum portal, a enchente que os atrapalhava.

Um dos condutores, alheio à buzina do transporte de emergência, soca o volante do seu automóvel. Teve um dia ruim. Atrás de si, a vida não importa. Ao seu lado, uma folha cai na água da chuva. A folha circula seu carro, segue a um destino indeterminado. O olhar do homem captura o pedaço de vegetal e o acompanha, até perder de vista. Imóvel, o tal sujeito não reage às buzinas, sirenes. Precisa de ajuda? Se der sorte, pagou em dia seu plano de saúde. Talvez uma ambulância o resgate.

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP.