O futuro da Amazônia e o do mundo caminham juntos

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Em artigo recente no Estadão de 29 de dezembro de 2020, meu amigo Joaquim Levy faz um exercício interessante: na tentativa de estimar o retorno econômico da atividade agropecuária na Região Amazônia ele questiona qual é a renda gerada por um bovino que necessita de um hectare de área desmatada levando 4 anos para alcançar o peso de 500 kgs, obtendo de 15/17 arrobas de carcaça? Tal renda seria de R$ 4 mil, que divididos pelos quatro anos de engorda representaria um rendimento de R$1 mil ao ano, considerando que o novilho chegue ao longo de quatro anos ao peso ideal de abate e desprezando-se os custos de aquisição, de manejo e de manutenção da terra em condições ambientais adequadas.

O custo do desmatamento de um hectare de terra, representado pelo valor de toneladas de CO2 liberadas na atmosfera dele decorrente, está em torno de R$ 50 mil. Ou seja, a receita obtida nessa atividade na mesma área somente empataria em 50 anos com o custo implícito atual de desmatamento. Parâmetros identificados: I) Emissão de 350/400 toneladas de CO² por hectare desmatado; II) US$ 30 por tonelada de CO² sequestrado que vige na Europa; III) estimativa de 1 milhão de hectares de floresta desmatada no ciclo de 2020, sendo que a maioria é área pública, que deveria ser vigiada, protegida e preservada. Joaquim considera também os efeitos nos custos correntes de aumento do preço da energia elétrica em razão da redução de chuvas e do baixo enchimento dos reservatórios, que atualmente se encontram nos níveis mais baixos dos últimos 30 anos, para os meses de dezembro e para todos os outros meses do período chuvoso ou úmido, a verificar em janeiro, fevereiro, março e abril de 2021?

Se é assim, concordo com ele, além de adicionar outros quatro impactos, reflexos dessa visão conforme a seguir:

1 - Futura queda da produção agrícola por escassez de água decorrente da alteração do regime de chuvas que pode deixar o solo seco e impróprio para o plantio: aí teremos um fluxo que deverá se inverter e aumentar no tempo, apresentando uma queda da produção e produtividade agrícola nacionais;

2 - Perda de geração potencial de energia com reflexo na energia garantida nas usinas existentes no centro-oeste, sudeste e sul (10%, hoje, amanhã poderá ser de 15%, 20%) ou substituição por outra fontes mais caras e poluentes?

3 - Perda de receitas nas hidroelétricas por aplicação desse parâmetro exdrúxulo, “GSF” (Generation Scaling Factor que é uma medida do risco hidrológico, isto é do volume de chuvas necessárias nas bacias hidrográficas, para geração de energia na garantia física), desincentivando assim a geração em novas hidroelétricas e

4 - Risco de determinadas regiões se transformarem em áreas fortemente áridas ou até a possibilidade de aparecimento de desertos, principalmente na região centrooeste, vindo a afetar futuramente o Estado de Goiás, o DF, partes da Região Oeste de São Paulo e Sudoeste de Minas e até partes da Região Sul.

A complacência de governantes com o desmatamento hoje afetará no prazo de 5 a 20 anos essas regiões e as mudanças poderão ser dramáticas para o Brasil. Ao reduzir o potencial dos “rios voadores”, o processo castigará diretamente os que se acham beneficiários dessa política atual e os demais de forma indireta mais fortemente e isto posto poderá não haver solução nos próximos 30 anos.

É um alerta, os reservatórios esvaziados de forma contínua estão falando...

O cenário está descrito no livro “Efeitos das Mudanças Climáticas na Geração de Energia Elétrica”, 2014, de José Wanderley Marangon Lima, Walter Colisschonn e José A. Marengo, e que traz na página 59 o seguinte: “Vários modelos estão projetando risco de redução nas chuvas, temperaturas mais altas e estresse hídrico, o que pode levar numa substituição repentina das florestas da Amazônia por vegetação do tipo savana, sob um cenário de alta emissão (A2) de 2050-2060 a 2100... A possível savanização ou o diet-back (morte) da região Amazônica teria impacto potencial de grande escala no clima, na biodiversidade e pessoas na região. Entretanto a possibilidade desse cenário “die-back” ainda é incerta”.

A última frase ora citada nos parece um alívio, mas é bom ressaltar que a edição é de 2014 e que essa obra prima complexa e de grande valor científico se encontra hoje em processo de revisão e atualização dos dados, e demonstrará a confirmação do cenário de “stress”. Isto posto, este trabalho poderá ajudar-nos a refletir e envidar esforços para que a rota seja mudada enquanto é tempo. O MME é conhecedor e está a par do cenário extremamente danoso ao país e precisa agir antes que ações para o retorno sejam custosas e ineficientes.

Poderemos medir os impactos e valores que devam ser considerados no aprisionamento da tonelada do carbono e que são fluxos anuais, os impactos ambientais intangíveis, tipo das culturas locais, o valor da biodiversidade e os impactos da regularização das chuvas no território nacional afetando o plantio agrícola e os grandes reservatórios que armazenam água e energia ao mesmo tempo e a maioria foi construída no período de 1955 a 1985.

Deve-se reverter o mais rápido possível a situação atual: i) cobrar royalties pelo uso d`água (“rios voadores”) na produção agrícola à semelhança da geração hidroelétrica e; ii) colocar penas duríssimas para a transgressão no desmatamento de terras públicas e não públicas em toda a Amazônia e Região Centro-Oeste para não condenarmos as gerações futuras.... Um legado que estão querendo acabar, será que é isso que os ditos “liberais” propõem? Parâmetros que manteremos em sigilo: preços de energia hidroelétrica não produzida frente a alternativa térmica e poluente e projeções de perda de produção agrícola.

O impacto é gigantesco e está na hora de colocar os números para debates e obtenção de recursos voluntários originários dos países membros da floresta Amazônica e dos demais países do mundo através das externalidades geradas para o bem ou para o mal, que se beneficiam e se beneficiarão da preservação da Amazônia intacta, reflorestada e com ativos reais longe da cobiça pessoal dos que visam à obtenção de lucros fáceis sem medir o custo global dessa preservação e seus impactos.

Segundo o cientista Antônio Donato Nobre: “Não é a indústria da multa que é inimiga do agronegócio, é o desmatamento”. “A destruição da floresta vai secar o Brasil e vai quebrar a agricultura (1) brasileira”. O prejuízo já incorrido é da ordem de Trilhões de reais, relatório do INPE, figuras 2 e 3 e gráfico do ONS. Evidências do descaso e correlação do desmatamento e esvaziamento dos reservatórios.

Macaque in the trees
. (Foto: .)

(1) A agricultura depende umbilicalmente de um clima amigável. Vou dar um exemplo da importância da floresta para o agronegócio. Em estudo recém-concluído que ainda vai ser divulgado, fizemos a análise de dois municípios produtores de grãos no Mato Grosso, uma potência do agronegócio. Os municípios em questão foram Querência e Lucas do Rio Verde. Os dois estão quase na mesma latitude, 400 km de distância uma para outra, quase a mesma distância da Amazônia e estão na região de transição do Cerrado. Nos dados de 2011, vimos que Querência tem 7 meses de seca e Lucas do Rio Verde 5 meses de seca, o que possibilita a Lucas duas safras por ano. Por quê? A diferença entre uma localidade e outra é que o vale úmido de Lucas do Rio Verde tem a influência dos 150 km de floresta preservada da Reserva Indígena do Xingu, que umedecem as massas de ar e fazem os rios voadores chegarem em Lucas. A floresta em pé ali perto, em 2011, equivalia a uma diferença de 80 milhões de reais em 2011, ou seja, 400 mil toneladas da segunda safra de Lucas. O que nós estamos fazendo? Estamos matando a galinha dos ovos de ouro. A destruição da floresta vai secar o Brasil e vai quebrar a agricultura brasileira. Se tiverem dúvida, vai no Google Earth ver o que aconteceu na Arábia Saudita. Lá, 11 mil anos atrás, tinha floresta. A pecuária destruiu a floresta lá, assim como no Saara. Estamos fabricando um deserto dentro da América do Sul. Não temos dúvida, as imagens de satélite mundiais mostram isso. Nos últimos 40 anos, cientistas estão falando sobre as mudanças climáticas e têm sido criminosamente ignorados. Isso por causa de mentiras pagas de trabalhos de mercenários. A mesma coisa está sendo feita em relação à agricultura. É tempo do agronegócio se despertar, porque mercenários vendem conveniências agradáveis de se escutar, mas que são conveniências mentirosas. Agora é momento de pensar também no seu negócio. A destruição de floresta é suicídio. Nós vamos perder a galinha de ovos de ouro.

LINK 1

LINK 2

 

 

Conversão 1 Km² = 100 hectares. A2 = cenário de alta emissão de gás estufa. Amazônia/Área 5.500.000 km²; Área brasileira: 5.033.072 km². Primeira Estimativa de Valor da Amazônia Brasileira = 5.033.072 *100*400*30 = US$6,04 trilhões - Aprisionamento de CO²

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Manuel Jeremias Leite Caldas é engenheiro/IME; Doutor em Economia



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