A Cidadania e a intentona

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João Saldanha, destemido cronista esportivo, apelidou "zona do agrião” o temível espaço da grande área onde se articula o gol ou se comete o pênalti. Onde a grama não nasce. Onde qualquer passo pode ser fatal. O Brasil está na zona do agrião.

Nossa seleção governamental entrou em campo para jogar uma bola quadrada, talvez porque estivesse convencida de a terra ser plana. E seria necessário uma revolução radical nos costumes, na educação e na economia. Não houve debate público.

Dois anos depois, temos que reconhecer o bom-sucesso desta missão civilizatória. Regredimos. E disto é prova contundente a opinião sobre o Brasil nos corredores internacionais. Somos um país hilário. Somos um país que não se convida para banquete. Nem para piquenique.

Se nos 16 anos em que FHC e Lula presidiram o país, universidades europeias e americanas sentiam-se honradas em tê-los como Doutores Honorários e auditórios lotavam para ouvi-los como dirigentes de uma nação em paz consigo mesma e em processo de crescimento dentro do respeito a divergências democráticas, hoje, ao fim de dois anos de governo, nosso líder ainda aguarda um convite, seja da Hungria seja da Polônia para expor nos meios acadêmicos e políticos a ideologia aqui plantada como força seminal de um novo mundo. E que dele sistematicamente nos afasta. Uma espécie de “Brazit" universal.

Nosso augusto Chanceler, já em seu discurso de posse diante do corpo diplomático ofereceu em português, grego e tupi-guarani uma amostra da torre de Babel em que se transformaria o Itamaraty. Dois anos depois, e apesar dos esforços do Chanceler em comparar Trump a Bolsonaro e ambos a redentores do Ocidente “globalista", Trump rumina uma derrota eleitoral por ele acusada de fraudada, embora haja votos contados e recontados, coisa que infelizmente não se poderia fazer no Brasil onde máquinas eletrônicas são “eletronicamente viciadas”. Apesar de resistirem a hackers de alto coturno.

O que teria dado errado na iluminada gestão de Trump? O que poderá dar errado no projeto renovador brasileiro?

Aqui me apoio no insuspeito professor e financista Dr. Paulo Guedes, carinhosamente conhecido e reconhecido pelo povo brasileiro como Posto Ipiranga, decoração inamovível concedida pelo presidente da República.

Sua Excelência tem aguentado com austeridade fiscalizada a sanha de invejosos economistas a exaltar a falta de bagagem acadêmica do Posto Ipiranga no meio universitário nacional ou estrangeiro, como se escrever teses ou artigos fosse atestado de sapiência. Sua Excelência humildemente espera o Prêmio Nobel como o primeiro brasileiro a merecer supremo reconhecimento nas ciências sociais.

E o que nos diz nosso Posto Ipiranga? O óbvio, o que só não reconhecem os esquerdopatas: a Peste. Não fosse a Peste o Brasil já teria decolado e estaria em céu de brigadeiro perseguido acintosamente pelos investidores internacionais que aqui querem plantar uma nova forma de paraíso. E agora, para vencê-la, basta declarar seu fim iminente. A Peste está em fase de extermínio. Ridículo pensar em novas medidas emergenciais como o demagógico Congresso Nacional talvez pense em fazê-lo.

As declarações de Guedes são confirmadas na televisão pelo chefe de Estado na véspera do Natal. Recordou- nos que a Peste se vence com hidrocloroquina e estamos conversados. A vacina, qualquer que seja, é desnecessária e portanto o fato de o Brasil não saber quando efetiva e maciçamente será vacinado é questiúncula inoportuna e indesejável. Será comprada, por generosidade imperial. E por imposição das circunstâncias.

Seja bem-vindo à zona do agrião. Comecemos por eliminar alguns mitos. O primeiro e mais grave deles é imaginar que estamos atravessando um período político turbulento como, por exemplo, o que antecedeu a morte de Getúlio ou a queda de Jango. A guerra fria acabou. Estivemos durante dois anos em lua de mel em Mar a Largo.

O segundo mito é acreditar que o atual presidente da República seja ingênuo ou, pior ainda, ignorante. Ele sabe muito bem o que quer e tem apoio de ingênuos, mas também de almas-irmãs.

Terceiro ponto, Bolsonaro é político sagaz e fala a língua que o povo entende. Talvez só Lula, dentre os políticos vivos, use a mesma linguagem embora com sintaxe diferente. Lula, indiretamente, atapetou para Bolsonaro a aceitação pelo povo marginalizado de um suposto igual na aspiração de varrer a pobreza e a injustiça social para baixo do tapete. Sua declaração pública de não entender nada de economia e anunciar Guedes como czar levou os mercadores e financistas a uma tranquilidade de oito dígitos. Ali nascia a grande aliança e se sacramentava a intocabilidade da PEC do “teto de gastos”. E a grande sinfonia pastoral das reformas estruturantes. E a promessa de privatizar tudo. Vender tudo. Como lata-velha. Lixo.

Quarto ponto, Bolsonaro é mestre no uso de frases semivalentes ou bivalentes, o que demonstra habilidade no jogo das ambivalências, sua marca registrada. Exemplo: quando diz algo como “tem muito malandro se armando, por isso tenho armado o povo. O povo armado nunca será escravizado. Armei o proprietário do campo. Vocês já viram mais algum ataque do MST?”

A frase tem vários subtextos e só encontra ressonância antilógica quando você se lembra ter sido, por ordem dele, extinto o procedimento de tornar rastreáveis as armas disparadas. Trabalho executado pelo Exército brasileiro.

Os exemplos podem ser multiplicados. Mas em todos eles, qualquer frase tende a parecer razoável até para quem tenha dúvidas sobre o uso de armas. E torna mais palatável que o “desarmamentista“ seja um tolo ou opositor. Ou um tolo-opositor. O mesmo vale para vacinas. “ Não vou me responsabilizar por efeitos colaterais das vacinas” (sobre isso escreverei mais adiante).

Sobre a imprensa, a ambivalência é assustadora, radical, principalmente ao se dirigir oficialmente em formatura de policiais sobre a importância de eles se lembrarem dos defeitos da imprensa em suas ações laborais. Seu decreto de anistia de Natal implementa vicariamente a exclusão de ilicitude rejeitada pelo Congresso.

Bom ano. Para todos nós. (Continuo no próximo domingo)

*Embaixador aposentado