Pinheiro de Natal

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– Água, muita água. Coloca num balde cheio e deixa um dia – Foi a recomendação do jardineiro ao entregar a pequena árvore. Incisivo, de poucas palavras, olhar firme, me atribuía a responsabilidade pela planta daquele momento em diante. – Essa tem raiz, viu? Dá pra plantar depois do Natal.

Assenti com um movimento de cabeça. Mostrei ao jardineiro e seu ajudante o pinheiro plantado no final dos anos 80, no quintal ao lado. – No começo dava para iluminar. Depois de grande, faltaram degraus na escada. Hoje em dia, nem o corpo de bombeiros – brinquei. – Melhor deixar num lugar iluminado, ela gosta de luz – foram as últimas recomendações que recebi do cuidador de plantas, sua voz parecida com a de um professor ralhando com os alunos antes da prova a evitar que colassem.

Como não tenho um balde maior do que o vaso da árvore, usei o regador. A terra seca, esturricada, bebia todo o líquido despejado e parecia pedir mais. Foram uns cinco regadores cheios até algumas poças se formarem na superfície amarronzada. Já era tarde, quase seis. Deixei o pinheirinho ao relento. Torci para que se esquecessem dele, eu tampouco me lembraria de aprisioná-lo dentro de casa. Por dois dias, segui à risca a recomendação do jardineiro professor. Regava o vaso sempre que o via, ele aquecido pela luz solar.

Até que quarta passada ouvi minha filha ao telefone. – Mas faz dois dias que ficaram de entregar e nada. Não, não está aqui – ela dizia. Entendi tratar-se do pinheiro. Temi prejudicar o assistente do jardineiro e pedi o aparelho – Sim, está aqui sim. De soslaio, notei uma expressão de reprovação incinerando minha orelha direita, àquela altura mais vermelha que o sangue do capeta. A resposta veio com o sotaque oriental do ancião cuidador de plantas. – Enfeita com amarelo, a planta gosta. Sua voz, impositiva, agora trazia alguma suavidade – Não esquece da iluminação – concluiu.

Depois disso, não teve jeito. Coloquei a planta porta adentro e começamos a decorá-la. Do presépio ao lado, um pouco afastado do vaso, eu cuidava. Minha filha pegou a caixa de decoração, removeu a poeira de quase um ano, abriu e pegou a primeira bola... amarela, brilhante. Colocou no centro do pinheirinho. Tal qual um coração dourado, o enfeite deu vida aos tons de verde adjacentes. A estrela decorada no topo encerrou a primeira etapa das festividades de final de ano. Faltavam as luzes. Onde estariam?

Reviramos o sofá, olhamos embaixo das poltronas, fomos até o armário onde a caixa de decoração esperou um ano inteiro por seu grande momento. Nada. Antes de dormir, entrei na sala da árvore. Como a havia disposto perto da janela, a luz da cidade a alaranjava. Abri uma fresta, o suficiente para o sopro urbano da madrugada entrar. Dia seguinte, iríamos atrás da iluminação.

Na internet, pedimos logo três luzinhas, por garantia. Me arrependi. Durante final de semana recebi tantas ofertas de iluminação que só sendo sócio da Itaipu para bancar a conta de luz. Mas valeu a pena. Até que a decoração ficou... iluminada.

Tenho sido um bom aprendiz de botânica. Se me visse procurando no Google adubo para pinheiros de Natal, talvez o ancião jardineiro japonês se orgulhasse de mim. Talvez não. Nem sei se se lembra de alguma coisa. O caso é que, de dia, a árvore tem sol e água à disposição. À noite, vários jogos de luzes e lâmpadas refletidas nas decorações. É tanta luz que, dois milênios atrás, certamente os reis magos não teriam problema para achar o filho do criador no presépio ao lado.

Quem está gostando é a árvore. Nas extremidades, suas folhas estão de um verde reluzente. Dá gosto de ver. Se fosse gente, diria que a planta está feliz. Que bom! Oxalá tenhamos muitos pinheiros felizes e iluminados. Um ótimo Natal a todos!

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP.