Cloroquina, o cão sem dono.

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Programei o despertador para as seis e vinte. A muda de roupa estava pronta, no armário ao lado. Assustado, saltei da cama ao escutar o primeiro bip. Me aprontei, calcei os sapatos, corri para o quintal. A lixeira estava lotada. Esvaziei-a, amarrei o saco de lixo com dificuldade e levei à rua, torcendo para o caminhão da empresa coletora não ter passado. A rua estava silenciosa. O dia amanhecia, ainda tímido. Nenhuma alma viva a circular. Apenas um ou outro pássaro cantarolava.

Segundos depois, ouvi o ronco do caminhão e os gritos dos lixeiros. Em pé, aguardei se aproximarem. Há duas semanas pediam a caixinha de Natal, eu estava devendo. Entreguei o dinheiro a um dos homens. Após saudações e agradecimentos, voltei-me para o portão de casa. Antes de entrar, senti que faltava alguma coisa. Foi quando percebi que o vira-lata da rua, que se divertia correndo atrás dos homens, havia sumido.
Andei uns cinquenta metros pela calçada, procurei seus donos, um casal de moradores de rua. Quando discutiam e a coisa esquentava, o cachorro, geralmente imparcial na disputa, disparava a latir. Da mesma forma, sabíamos quando o amoroso calor humano os aproximava. Nesses momentos, o cão gania meio sem jeito e soltava um rosnado de estranhamento. Logo silenciava.

Das últimas vezes que o vi, o bicho estava sozinho. Se bem me lembro, foi logo depois de uma discussão entre os donos, que sumiram. Passamos então a alimentar o cachorro com ração e água. Mas seu comportamento, antes alegre, embora mostrasse um ou outro traço de instabilidade, azedou. Sentia-se o dono do pedaço. Corria atrás de bicicletas, transeuntes tinham de atravessar a rua, ninguém ousava passar ao lado da sua árvore mictório. Até ao alimentá-lo e encher seu pote de água enfrentávamos um ranger de dentes. Nas noites mais frias, o cão dividia a guarita com o vigia. E começou a dominar a guarita. Ninguém entra, ninguém sai.

É uma segurança, brincávamos. Numa tarde, o irritadiço animal resolveu aventurar-se no quarteirão do hospital, uma rua acima. Encasquetou com o sapato branco de um enfermeiro, acuou, com seus poucos quilos, uns cinco contra a parede. Um dos acuados, na brincadeira, sugeriu dar cloroquina para ele. Pronto! A história correu a região e o cão foi batizado.

Cloroquina, o cão sem dono, perdia os limites. Corria atrás de todos, corria atrás do rabo. Errático, vagava por horas balançando alegremente o pequeno corpo. De súbito, estacionava no canteiro de obras, deitava e lambia as patinhas em sinal de ansiedade. Quando um humano se aproximava para acariciá-lo, jogava a cabeça para cima e aceitava o afago, mas logo se enfurecia, como a se lembrar de que o mandão na rua era ele. Pensamos estar doente. Solidários, contratamos um veterinário para examiná-lo, dar vacinas. Mas, ao ver a seringa, Cloroquina deu nas patas. Hospitais e tratamentos não eram com ele.

O cão nanico deve ter algum desvio de personalidade. Se acha muito maior do que é. Pode ser que, por enxergar-se um rottweiler, tenha buscado um espaço maior. Um sítio, fazenda, com muitos alqueires. A persistir sua mania de grandeza, pode se apossar de uma floresta inteira. Mas, pensando bem, Cloroquina não parece se ajeitar sem um dono.

Quase no final da rua, um sujeito comprou a maior casa do bairro. Deve ser estrangeiro. Das poucas vezes que nos encontramos, se mostrou muito simpático, embora reservado. Fala forçando o erre no céu da boca, lembra algum sotaque do norte. Eslavo, talvez. Dizem que é dono de metade do gelo no Ártico. Semanas atrás, esse morador acariciava a barriga do Cloroquina. Dava biscoitos enquanto o bicho virava as patinhas para cima e as agitava, babando, eufórico.

Torço pela felicidade do cão. Talvez esteja no aconchego do lar estrangeiro, balançando o rabo e correndo atrás de uma corda com pneu de borracha na ponta. Solto e abandonado, é um problema. Vai que ocupou uma floresta inteira? Nesse caso, o influenciável Cloroquina bem pode trocar seus rios e árvores por um petisco de groselha e um punhado de ração. Basta o novo dono sinalizar com um agrado.

Publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP.