Mercados pouco explorados

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O CEO da multinacional se aproxima do diretor de marketing, que toma seu cafezinho matinal colado à máquina de expresso.

– Precisamos aproveitar essa onda antirracista no Brasil. Você viu a movimentação nas ruas? Vamos desenvolver uma linha de produtos exclusiva para os negros. Que tal? – O CEO acompanhou durante o final de semana a repercussão do brutal assassinato num supermercado em Porto Alegre. Quer aproveitar a reunião da tarde com o “board internacional” para emplacar sua ideia.

– Ótimo! Até porque é um “target” pouco explorado. E representa mais de 50% da população brasileira. – “Que saco, segunda-feira e o cara me acorda com tudo? E ainda me vem com esse ‘Que tal’, como se eu tivesse opção”, matuta o subordinado. Ele terá de adiar o projeto da linha “premium” de que tanto se orgulha e tenta emplacar há mais de ano. Agora, deve lançar produtos de baixa qualidade e voltados a “less sophisticated people”, “pessoas menos sofisticadas”, frase que usou numa reunião ao se referir à grande massa de consumidores brasileiros.

– Menos chocolate, mais açúcar. Capricha no biscoito, usa o trigo mais barato. Não se preocupa com as vitaminas. Tem que ter sustância, encher a barriga. – É a recomendação do CEO à equipe de desenvolvimento de produtos. Ao “board”, a quem o mandatário nacional presta contas, sugere vender com exclusividade à rede onde se deu a morte do rapaz por espancamento. – Perfect. Great Idea. Let´s do it! – São algumas manifestações dos comandantes internacionais, que provocam no CEO um sorriso de falsa modéstia no canto de um dos lábios. Ele também enxerga, na crise da rede varejista, uma oportunidade de aumentar o lucro e se aproximar das metas anuais.

A matriz da rede de supermercados, mais preocupada com a repercussão internacional do que com o crime na loja, se reúne com sua assessoria de imprensa e obriga o presidente da filial brasileira a se manifestar. Tevê em rede nacional, horário nobre, e o mandatário varejista pede desculpas num português arrastado. Ao seu lado, o gestor de RH tenta defender o indefensável: a imagem de marca socialmente engajada. 

Na semana seguinte ao brutal acontecimento, planos de ação brotam das salas adjacentes à da presidência varejista. O diretor de compras apresenta a proposta de linha exclusiva para pessoas “de cor”, como se ele próprio se despigmentasse. – Em frente! – Diz o chefe da rede de lojas, contrariado pelo alto preço dos produtos. Mas não importa. O momento é de apagar incêndios e minimizar a queda das ações na bolsa.

– Vamos colocar a emoção de lado e pensar de forma prática. Precisamos dar uma resposta ao mercado. Mais ideias! – Exige o presidente aos descoloridos executivos da varejista. Borbulham sugestões, todas aceitas: descontos em produtos para aumentar o fluxo nas lojas, apoio financeiro a ONG´s, campanhas de marketing, etc. – Em um mês ninguém mais lembra. Importante manter o faturamento para o Natal. O momento é para gerenciar a crise. Conto com todos vocês. – Conclui aos asseclas.

Final do dia. Terminadas as reuniões, entra na sala presidencial o diretor de relações institucionais.

– Como foi em Brasília? – Pergunta o mandatário.

– Conforme o previsto. O número dois falou que não existe racismo no Brasil. O número um esbravejou aos quatro cantos do planeta que deixassem de inventar histórias, o país aqui é miscigenado, nem citou o nome da família do rapaz de Porto Alegre. O da Economia está preocupado, disse que na pandemia tem muitos problemas, a única coisa de que não precisa é uma queda na bolsa. Mas falou pra ter calma, deixar a poeira assentar e que vai achar um jeito de minimizar as perdas.

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Que país! Descanse em paz, João Alberto.

Ricardo A. Fernandes é publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP.