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Mulheres, ainda temos uma longa caminhada

Sim, conquistamos lugares nunca antes ocupados por tantas mulheres na política brasileira. Elegemos mulheres negras, trans, periféricas,...

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Sim, conquistamos lugares nunca antes ocupados por tantas mulheres na política brasileira. Elegemos mulheres negras, trans, periféricas, com propostas e representatividade diversas. Foi lindo e está sendo revigorante. Estamos caminhando e percebemos que o resultado das manifestações, eventos, encontros, textos produzidos, protestos por todo o país começa a aparecer.

Fiquemos atentas, entretanto, à palavra “começa”. Sim, porque ainda temos uma longa caminhada. Em todos os 26 estados brasileiros, há pelo menos um município que não elegeu uma mulher sequer para a Câmara Municipal. Em um número nacional e absoluto, 948 cidades não terão representatividade feminina no legislativo local.

Ainda na análise dos números, podemos considerar como ponto positivo o fato de que 1,8 mil municípios elegeram uma mulher como vereadora. Apenas uma. Porém, é o dobro de cidades que não elegeram nenhuma. É positivo sim. Quando lembramos de toda a violência – doméstica, física, psíquica, institucional e até mesmo política – que acomete as mulheres país afora. Sim, estamos virando a curva a caminho da reta de chegada na corrida eleitoral. Mas essa curva é fechada, íngreme e cheia de pedregulhos. E a reta de chegada, longa, longa, longa e pontuada por barreiras. Tem mais: não é a eleição de mulheres que significa a linha da vitória. Precisaremos ficar atentas para que as nossas vereadoras legislem, representem, transformem, com a força e respeito que seus mandatos oferecem.

No twitter, Anielle Franco, irmã de Marielle, fez um apelo que ilustra bem esse percurso que temos pela frente: “Quem cuida dessas mulheres eleitas agora? Não basta eleger. Tem que cuidar! Cuidem de todas, todas, TODAS as mulheres eleitas para que elas nunca passem pelo o que minha irmã passou!”
Marielle era uma dessas mulheres que nos enchem de orgulho: negra, homossexual, mãe, do Complexo da Maré para a Câmara Municipal, que tinha nos jovens da periferia seu foco legislativo, de militância. O que aconteceu com ela todas nós sabemos. Quem matou Marielle ninguém sabe.

Faltam menos de vinte dias para o assassinato da vereadora Marielle Franco completar mil dias. E a pergunta segue a mesma: quem mandou matar Marielle e por quê?

Comemoremos as nossas novas vereadoras. Festejemos todas as negras, mães, mulheres de luta, trans, companheiras das mais diversas periferias do país. Mas cuidemos. Vamos juntas, de braços dados. Ninguém solta a mão de ninguém. Porque ainda temos uma longa caminhada.

Lidice Leão é jornalista, pesquisadora e mestranda em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo.