Lua descartável

A devastação das florestas preocupa, desperdiçamos o ativo da biodiversidade para vender madeira e abrir campos de pecuária

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Em pé, o garoto se equilibra sobre um corrimão. Seus calçados tamanho adulto suportam o peso do corpo adolescente, algo desajeitado. Já tentou caminhar pela superfície arredondada de alumínio, mas foi ao chão de cimento. Suas pernas estão fracas. O mentor de ginástica, a fim de fortalecê-lo, insiste: “Dê o próximo passo. Você já viu um bebê aprender a andar sem cair? O importante é controlar o desequilíbrio”. A despeito do cansaço, o menino segue com as tentativas. A mãe o observa. Tem no colo o irmão mais novo e, ao lado, uma sacola com mamadeiras, potes de papinhas, fraldas descartáveis, lenços umedecidos e todo o mais necessário para o bem-estar do filho caçula, que se diverte com a embalagem plástica de um chocolate.

Próximo ao menino equilibrista, outros brincam ao ar livre, sob o olhar do instrutor. Alguns saltam muros, pulam das calçadas a paralelepípedos, uns poucos se exercitam nos degraus das escadas. Usam o ambiente urbano, apropriam-se do concreto, fazem das ruas o quintal de casa. Talvez seus avós e bisavós nadassem em rios, corressem entre árvores e observassem a lua surgir atrás das montanhas. A lua, aqui, divide o céu com as lâmpadas dos postes. Outra criança, cuja irmã faz malabarismo nos restos de uma construção, aponta o dedo para o satélite natural: “Olha aquela lâmpada redonda e fraquinha”.

A lua não serve para iluminar as ruas. Fosse um recurso, seria praticamente descartável. Por sorte, moramos num país onde sobram recursos. Temos uma das maiores reservas de água doce no mundo, “energia limpa” para clarear as metrópoles e movimentar máquinas. A devastação das florestas preocupa, desperdiçamos o ativo da biodiversidade para vender madeira e abrir campos de pecuária. Em compensação, nossa tecnologia para gerenciar terras cultiváveis é das mais avançadas. Estamos entre os maiores exportadores de carne e minério. Os estudos e melhorias nas práticas de lida com o solo aumentarão a eficácia do abundante capital natural.

Em seu livro “Ideias para adiar o fim do mundo” (Cia das Letras, 2019), Ailton Krenak avalia o modo como a humanidade enxerga a natureza. Uma humanidade “descolada de uma maneira tão absoluta desse organismo que é a terra”, avalia o autor. Desde a primeira infância, os habitantes de centros urbanos são acostumados a obter do planeta mais recursos. Krenak cita ainda o ex-presidente uruguaio José Mujica ao alertar para o fato de que nossas crianças são ensinadas a serem clientes.

A modernidade tomou conta. Bebês, nossos filhos consomem conservantes e estabilizantes nas papinhas e leites UHT. São bombardeados por programas infantis dentro de suas casas, pois fora não há quintal com plantas, terra onde pisar, animais para conviver. Estabelecem laços afetivos com paredes e muros, com o que aprendem a brincar desde cedo, quando não jogam vídeo games. Ao crescerem, a ciência lhes servirá para desenvolver antidepressivos mais eficientes. A curiosidade do saber cede espaço à utilidade. Florestas, rios, montanhas de pedra devem ser preservados a fim de viabilizar a vida no século 21. A essa preservação de recursos demos o nome de sustentabilidade. “O que é preciso sustentar?”, questiona Krenak.

As pernas trêmulas não sustentam o garoto em pé, quanto mais em cima do corrimão. A decepção em seu rosto é visível, mas ele tenta. Não há mais nada a fazer. Tal qual máquina, temos a impressão de que só vai parar quando a energia que o move se esgotar. ‘Controle o desequilíbrio’, são as palavras que reconhece. A estabilidade depende do seu controle e forças. Mas ele, menino, perde um bocado de esperança a cada tentativa. Não importa a tenacidade nas pernas e foco mental. Mais dia menos dia, ele vai cair. Respira. O ar da avenida pouco o ajuda, antes provoca tosse.

O menino olha para o céu. A lua sumiu. Algumas nuvens cobrem igualmente as estrelas. Em segundos, uma ventania se forma e interrompe o treino do grupo. Um pingo de chuva cai sobre seu ombro. Outro. Pegas de surpresa, mães agarram seus bebês e correm a um lugar coberto. Deixam para trás caixinhas vazias de achocolatados, colheres plásticas e tampas de comida de bebês, embalagens de chocolates. Sobra até uma sandália de dedo a ser levada pela água, errática, ao ralo mais próximo da moderna cidade.

Ricardo A. Fernandes é publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP.