Venceram, sim, as instituições democráticas

..
Credit.....

Na disputa da presidência dos Estados Unidos, o vencedor foram as instituições democráticas. Simplesmente isso. Verdadeiramente isso.

E o perdedor? O perdedor foram as fake news, inimigo maior da democracia contemporânea, tanto no Norte como no Sul. Como ensinou meu professor Adam Przeworski, "democracia é a arte de perder eleições", neste caso, fortalecendo as “regras do jogo” democrático, para a próxima disputa eleitoral. Isto, Trump não soube fazer, para o desapreço do Partido Republicano, que sobrevive ao atual Presidente e tem que disputar novas eleições.

Além disso, no calar da noite de quinta-feira, ao fazer um pronunciamento à imprensa com uma sequência de várias alegações de irregularidades nas apurações, claramente mentirosas, não apontou nenhuma evidência verificável. Nenhuma, nem uma, como quiserem.

Fez isso e saiu da sala de imprensa da Casa Branca cabisbaixo, praticamente correndo, em meio a uma saraivada de perguntas dos jornalistas lá presentes. O evento repercutiu negativamente em grande parte da mídia e os comentaristas da CNN não esconderam seu mais absoluto desgosto, inclusive o comentarista do Partido Republicano. Uma comentarista da emissora não se fez de rogada e disse que, no seu longo período de cobertura política dos EUA, jamais tinha testemunhado gesto tão deplorável. “Ele mentiu” foi como outro qualificou a manifestação de Trump. E de dentro da Casa Branca, concluiu. Basta lembrar que o Presidente republicano Nixon, depois de negar, sofreu julgamento condenatório da invasão da sede do Comitê Nacional Democrata, no edifício Watergate, o que o levaria a um processo de impeachment, do qual escapou renunciando.

Trump, na verdade, passava uma mensagem falsa a seus apoiadores, possivelmente na expectativa deles se mobilizarem extra urnas, seja lá como for, desestabilizando a bicentenária democracia norte-americana, em seu favor. Ao contrário do que os defensores do uso de uso orquestrado de fake news, Steve Bannon e Roger Stone apelar para o lado imediatista e irracional do ser humano não funciona. Se Trump foi bem sucedido no seu uso de fake news como a cobertura mostrou – não foi maior que a manifestação das urnas, em favor de Biden. Venceram as instituições democráticas, venceu Biden.

Lições para o Brasil, enfim, onde estes supostos ‘consultores’ tem admiradores, e onde nossas instituições de “justiça eleitoral”, até agora, não coibiu o efeito nefasto das fake news. Nunca é tarde.

Eduardo R. Gomes é professor de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense.