Sapato muito grande

Dias atrás, vi o mundo acabar em dilúvio. Nunca tive medo de chuva, mas já gostei mais das manifestações de Tupã, mensageiro das tormentas nas terras de Pindorama

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As eleições para prefeito estão aí, 15 de novembro. Se eu fosse candidato a reeleição, acenderia algumas velas e pediria um tempo ao deus da chuva. Quinze dias. Trinta, no máximo, em caso de segundo turno. Imagine só: sexta dia 13 – que data, hein? – cai uma tempestade. Você, preso no trânsito, vê a água do bueiro subir e se dá conta de que a coleta seletiva de lixo, alardeada pelo candidato, mal engatinhou. ‘Deve ser chuva de verão, logo passa’, avalia. A roda do carro ao lado está quase submersa. Surge então uma calota, que mais parece um bote descendo a corredeira, e atinge o para-choques do seu veículo. A preocupação se transforma em raiva quando a água que sobe o leva a abandonar o possante. Descalço, a barra da calça no joelho, você amaldiçoa até a quinta geração do sujeito que prometeu não aumentar a taxa de IPVA.

Dias atrás, vi o mundo acabar em dilúvio. Nunca tive medo de chuva, mas já gostei mais das manifestações de Tupã, mensageiro das tormentas nas terras de Pindorama. A coisa foi feia: até o cachorro, cujo máximo de empolgação se resume a uma das sobrancelhas levantada quando eu chego em casa, empinou as duas orelhas. Senti algum alívio quando o cão, despreocupado, se entreteve com a goteira no assoalho. A princípio, a cada dois segundos, um, vinte... gotas por segundo. Me lembrei da telha quebrada e esquecida no teto há mais de um ano.

Passada a chuva e a goteira, tomei uma atitude drástica: entrei na internet e comprei uma capa impermeável. Com um belo desconto, a página do site me ofereceu ainda um par de botas, dessas usadas por motoqueiros na chuva. Pronto! Que viesse a próxima intempérie! E veio, dois dias depois de eu receber a encomenda. Ouvi as primeiras trovoadas, o céu escureceu. Olhei para meu companheiro de quatro patas. Ele dormia. ‘Ok, há situações que um homem deve enfrentar sozinho’, refleti. Vesti a indumentária e torci para o ralo do quintal entupir novamente. Cinco minutos e lá estava eu, desafiando o maremoto. No pomar, livrei de forma heroica os tomates do afogamento. Missão cumprida. Saí ileso, feliz com minhas novas aquisições. Ao menos até tentar tirar as botas. Dormi com elas nos pés. E aprendi, a duras penas, que o número da galocha deve ser maior do que o do calçado. Como se não bastasse, a noite me trouxe pesadelos com o prefeito da cidade.

Pela manhã, tomei vergonha e resolvi consertar o telhado. Na loja de materiais de construção havia duas opções de telha. Uma delas custava R$ 1,45 a unidade. A outra, R$ 30,00. Pegadinha, no mínimo. A mais barata deve ser descartável, dura no máximo uns cinco serenos na madrugada. Que absurdo. Culpa do prefeito. Assim como a goteira, a inoperância do cachorro enquanto companheiro, minha pouca flexibilidade para tirar as botas, os buracos nas ruas, as inundações, falta de fiscalização nas lojas, o IPVA que só aumenta, a máfia dos fiscais. A lista vai longe. Voto em qualquer um, menos nele.

Ok, talvez tenha exagerado. Não sei se posso acionar a prefeitura pelas botas grudadas nos calcanhares. Mas desejo a qualquer governante municipal que um dia calce botinas, saia do gabinete e ande pelas cidades durante um pé d´água. Para sentir o drama dos motoboys, motoristas preocupados com o dinheiro perdido com o conserto do carro ao passar num buraco ou árvores caídas nas ruas. Uma vantagem, ao menos, os administradores municipais têm em relação aos seus concidadãos: usarão botas muito maiores que os pés. Seus calos nunca apertam.

Ricardo A. Fernandes é publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP.