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Artigo

O desafio no mundo após a pandemia

A realidade das grandes cidades brasileiras foi forjada a partir de um desenvolvimento insano e desorganizado

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Quando criamos o Coletivo Rio Boa Praça, há cerca de um ano, nossa ideia foi a de chamar a atenção para o abandono das áreas verdes, especialmente os parques urbanos e as praças, no Rio de Janeiro e no país.

Tais espaços são essenciais para o lazer, promoção da saúde, redução de áreas de calor e impermeabilização do solo, dentre muitas outras valências físicas ou psíquicas agregadas. Além, claro, de permitir ao cidadão um encontro diário e agradável com o meio ambiente.

Infelizmente, a realidade das grandes cidades brasileiras foi forjada a partir de um desenvolvimento insano e desorganizado, que nos legou a uma segregação urbanística, que separa os vizinhos pelo poder aquisitivo em zonas e regiões com mais ou menos infraestrutura (muito bem lembrado na célebre obra “Cidade Partida” de Zuenir Ventura).

Esse modelo, também, de forma geral, repeliu a formação de uma relação ecologicamente mais equilibrada entre o cidadão e o verde.

A materialização desse cenário é a cidade desenhada por fortes tintas do preto asfáltico e do cinza concretado. É por isso que a ação do Rio Boa Praça, ao criar um movimento, visou ao resgate das tão necessárias e desprezadas áreas de parques urbanos e praças. Afinal, eles poderiam permitir – em meio ao caos – a requalificação pública, de forma a produzir forte sensação de bem-estar para todos nós.

O isolamento social que nos foi imposto pelos rigores desta pandemia do Covid-19 (aprofundados pela falta de sintonia entre as três instâncias dos governos federal, estadual e municipal) nos traz forçosas reflexões. Dentre as muitas possíveis, gostaria de destacar a imperiosa revalorização dos espaços urbanos, pelos quais temos lutado nas ações de nosso grupo: parques urbanos e praças.

Esses espaços coletivos – naturalmente democráticos – possuem grande capacidade de promover um reencontro da sociedade de forma livre e solidária no período pós-pandemia, que, esperamos, deve chegar o mais breve possível.

Entendemos que, em meio a tantos problemas de infraestrutura que acometem os grandes centros – com a grita generalizada por políticas públicas de saúde, educação e segurança –, muitas vezes somos levados a crer que um maior cuidado de áreas públicas seja algo menor, face às graves emergências acumuladas que temos em nosso país.

Ledo engano! O governo, a sociedade e a iniciativa privada devem compreender que fruir o espaço verde e livre é algo especial.

Com a imposição de restrições de convívio entre a sociedade humana, nesse último período, pandêmico, é certo que muitos que antes não olhavam com a devida relevância que o tema merece, tendem a uma reavaliação. Se esta for coletivizada, certamente proporcionará novo fôlego aos nossos pedacinhos de chão ainda tão abandonados, que poderão se transformar no quarto elemento desta grita generalizada da população.

Nossa cidade conta com mais de quatro mil áreas verdes e a grande maioria – cerca de três mil – são praças. Algumas outras são os parques urbanos, que carecem especialmente de cuidados físicos, mas também de novas ações de planejamento.

Nesses nossos tempos de intensas transformações, urge a construção de uma nova legislação urbanística, que pense os parques de forma contemporânea. Esses oásis em meio as cidades precisam se tornar cada vez mais inclusivos, servindo a todos, idosos, crianças, deficientes físicos, homens e mulheres, sem esquecer, claro, dos animais domésticos (alguns considerados membros da família).

É desejável a modernização, inclusive de que sua gestão (hoje, uma responsabilidade apenas do governo) seja realizada, daqui em diante, em parcerias com a iniciativa privada, com o terceiro setor. Não devemos tolerar verdades absolutas ou ortodoxias estéreis quando o assunto é garantir uma qualidade tão necessária para degustarmos a liberdade e o bem-estar.

Cremos que a sociedade vai emergir, findo este isolamento obrigatório, ansiando maior contato com áreas verdes, parques urbanos e praças. Pode até ser o palco de uma espécie condensada, embrionária, do retorno do homem à Natureza.

E, precisaremos estar abertos e atentos para isto.

É preciso dar um novo sentido para este tema. É importante que as entidades criadas para defender a ecologia fiscalizem e atuem em defesa desses novos sentidos porque compreendemos que se torna obrigatória a construção de novos espaços – além de o cuidado e a recuperação dos já existentes – como se fossem o quintal de nossas casas, "locus amoenus" (lugar agradável), no qual encontramos felicidade e carinho para nossas famílias.

Everton Gomes. Cientista político e porta-voz do Rio Boa Praça