Publicidade

ARTIGO - Livros fantasmas

É possível sonhar com palavras?

..
Credit.....

Na boca, o sabor da última frase. Um sonho, grito. E nada. Resta a impressão do pesadelo desfeito conforme as camadas da memória se assentam. As frestas da janela recebem os primeiros raios do alvorecer. Esse é o instante em que o sono busca o sonho, mas o brilho matinal empurra a noite mente adentro, lacra o que sobrou de história no universo do desconhecido. Desperto.

É possível sonhar com palavras? Frases soltas caminham na etérea parede de nuvens que absorve o corpo enquanto a mente segue trilha errante. O despertar traz as urgências do dia, a fome grita. O tempo é breve, o corpo manda. Os demônios da noite se aninham num canto desconhecido da córnea, onde a luz do sol não bate. Fingimos não lhes dar importância, negamos sua existência até a próxima noite. Com o que sonharemos?

Palavras aleatórias, frases soltas, pinçadas dos sonhos, são como livros fantasmas. Precisam amanhecer. Quantas vezes não desejamos ler um certo livro? No desejo não consumado, fazemos nossa história com os poucos verbos conhecidos. Ao ler, ganhamos palavras, construímos espaços, fazemo-nos vivos. Daí a importância do acesso à leitura.

Esta semana, deputados no Congresso Nacional admitiram que a reforma tributária proposta pelo ministro Paulo Guedes não deve contemplar uma taxação adicional sobre o livro. Disse o deputado federal Baleia Rossi (MDB-SP) que o projeto de Guedes não será aprovado de forma isolada, mantendo, portanto, a isenção de tributos. Vitória parcial, a ser mantida com eterna vigília. Pois, na voracidade estatal por receita, ao virar a esquina, num canto perdido dos longos corredores ministeriais, o assunto pode correr de outra forma. Como no parecer da PEC 110/19, subscrita pelo senador Roberto Rocha (PSDB-MA), que trata do fim do papel imune e pode contribuir para aumentar o preço de livros, revistas e jornais.
Estudiosos no assunto dizem que, caso fosse aprovado o aumento de tributação sobre a cadeia do livro, haveria uma redução na quantidade de editoras e livrarias. Outro efeito seria a aposta de editoras nos best-sellers em detrimento de novos aurores, esses últimos menos rentáveis. Livros, que já são caros, ficariam ainda mais. Vinte por cento, segundo alguns cálculos.

Vinte por cento. Se o leitor me permitir uma sugestão, faça uma pesquisa de preço em livrarias, presencialmente ou nos sites. Uns poucos títulos são ofertados na faixa entre vinte e trinta reais. Outros, entre trinta e quarenta. A maior parte das obras, de acordo com a minha breve investigação, é vendida a quarenta reais ou mais. Uma pessoa que ganha R$ 1.045,00 – salário mínimo – teria condições de comprar um livro a, digamos, quarenta reais? Ou quarenta e oito, se adicionássemos os vinte por cento ao preço de capa?

A luta pela isenção de impostos na cadeia do livro é fundamental. Protege editoras, livrarias, empregos de profissionais do setor e, principalmente, evita que ainda mais pessoas deixem de ler. Muitas editoras pequenas operam no prejuízo. Livrarias fecham aos montes devido à pandemia. Ao aumentar impostos, o governo condenaria ao fechamento uma parcela significativa do setor cujas finanças beiram a insolvência. Mas a não taxação dos livros não resolve o problema do acesso à leitura.

Outras soluções devem ser pensadas. Voltemos aos livros vendidos a, por exemplo, quarenta reais nas livrarias. Haveria condições de produzir versões mais econômicas que pudessem ser comercializadas a preços substancialmente menores? Nesse caso, quantos pontos de venda seriam abertos em lugares onde, atualmente, não há sequer bibliotecas públicas de fácil acesso? Quantos leitores a mais, livros a mais? É possível? Acredito que sim, com alguma dose de criatividade. Interessa? A leitores e escritores, certamente sim.

Ricardo A. Fernandes é publicitário, escritor e membro da União Brasileira de Escritores-SP.