Jornal do Brasil

País - Artigo

A mudança no cenário de investimentos no Brasil: para onde vamos?

Jornal do Brasil ROBERTA DURÃO

Macaque in the trees
. (Foto: Pixabay)

Por muito tempo, investidores de todos os níveis de renda tinham acesso a posições relativamente seguras e com alto retorno. Foi a época da Selic alta, e também dos juros mais altos, em que opções de investimentos simples multiplicavam os valores investidos de forma atrativa. Com a mudança nesse cenário, o número de investidores pessoa física em ações e fundos mudou extraordinariamente, e as empresas passaram a ter um acesso muito mais fácil a capital extra.

Graças ao maior interesse do público nas opções restantes de investimentos acima do patamar extremamente baixo da Selic, há uma grande oferta de plataformas e empresas que facilitam esses investimentos.

Nesse momento, deixar o dinheiro guardado na poupança ou aplicado a um CDI de 110%, 120% ou mesmo 150% não traz um resultado nominal que seja interessante para a população. Como consequência, já são quase 3 milhões de investidores na bolsa, uma das alternativas mais buscadas por investidores novos e veteranos. Outros já não se interessam pelo longo prazo e buscam negociações rápidas, inclusive se especializando em entender como funciona o mercado Forex.

É certo que, após uma grande queda por conta dos receios gerados pela pandemia, a bolsa de valores vem se mantendo firme na marca dos 100 mil pontos, mas ainda há desafios consideráveis à frente. O mais atual é a divergência quanto à saúde fiscal do Brasil. Ainda em vias de construir um consenso entre os principais cargos do executivo e o ministro da economia Paulo Guedes, é um assunto que movimenta tanto a bolsa quanto o câmbio frente ao Real. 

As alternativas buscadas por investidores mais arrojados 

As incertezas fazem com que a já esperada volatilidade da bolsa de valores fique ainda mais imprevisível. Da mesma forma, o dólar bate recordes num dia, para então cair o mesmo tanto ou mais no dia seguinte. Enquanto posicionamentos mais conservadores veem os seus ativos subirem e descerem sem rumo definido, há quem esteja se aproveitando dessa volatilidade.

Um bom exemplo é o mercado de trading Forex, em que os ativos negociados estão ligados às variações de câmbio. Mesmo sendo um parâmetro impossível de ser previsto, os chamados traders buscam se nortear pelas notícias. As dúvidas quanto às medidas que serão incluídas no necessário pacote de ajuste fiscal brasileiro, ou se haverá mudanças no Ministério da Economia permitem negociações valiosas em cima da alta volatilidade – que também leva em consideração movimentações internacionais, é claro.

Qual será o próximo estágio dos investimentos no Brasil? 

Enquanto alguns negociam graças à incerteza doméstica e no mercado internacional, outros buscam apenas uma forma, ainda que volátil, de obter mais que 2% ao ano. Não há como saber se ainda será uma boa alternativa nos próximos meses, mas os brasileiros estão cada vez mais adeptos ao risco.

Segundo especialistas, a Selic dificilmente cairá muito mais, com a previsão de seu aumento gradativo nos próximos anos. No entanto, patamares de 10% a 14% que permitiam a existência dos chamados “rentistas” já estão muito longe da realidade brasileira.

É tempo de maior investimento em capital por empresas e de maior participação no mercado financeiro pelos brasileiros. Posições de longo prazo em empresas sólidas e a participação nos cada vez mais populares fundos imobiliários têm sido a escolha favorita dos iniciantes na bolsa.

As incertezas quanto à decisão e o rumo a serem tomados pelo governo, algo a que todo brasileiro já está acostumado, é o que nos impede de avançar. A esperança é que não ocorra algo similar ao que houve no México, onde movimentações semelhantes sem os devidos ajustes fiscais mantêm o país com um baixíssimo crescimento econômico. 

Roberta Durão é economista