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Um noturno de Chopin

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN, artigosadhemar@yahoo.com

Macaque in the trees
O ex-presidente Obama em seu discurso na convenção do Partido Democrata, nos EUA, esta semana (Foto: AFP)

Barack Obama não pertence apenas aos Estados Unidos da América. Após o discurso de apoio a John Biden, esta semana, na Filadelfia, Barack Hussein Obama II tornou-se o estadista da liberdade e dos direitos democráticos.

Seu melhor discurso foi pronunciado diante de uma sala vazia e não se pôde ouvir ou sentir a vibração do povo com suas palavras. Levada pelos satélites, sua voz elegante e digna, sóbria e profunda nos acordou do pesadelo onde hibernávamos.

Cada linha de seu discurso, cada pausa de sua retórica desenhava o panorama desolador desde os anos 80 do século passado quando um capitalismo predatório se havia espalhado pelos Estados Unidos em primeiro lugar e pelo mundo ocidental logo depois.

Impossível não se lembrar das cantigas de bruxarias desde Reagan e Tatcher, sobre a importância de abandonar o sistema econômico e social criado após a segunda guerra mundial e substituí-lo por um novo liberalismo, um neoliberalismo sem o qual “não haveria alternativa”.

Quarenta anos depois, neste ano de 2020, uma pandemia universal nos mostrou em toda sua depravada ostentação a miséria social em que se encontram países e povos e até o mais rico dentre todos, os Estados Unidos da América, ameaçados por forças desagregadoras do racismo larvar, do ódio ao dissidente e da mais absoluta desigualdade social.

Nas palavras de Obama, tranquilas mas sem esconder a indignidade, “nossos piores impulsos foram expostos, nossa reputação mundial, de que nos orgulhávamos, severamente atingida e nossas instituições democráticas ameaçadas como nunca antes.”

E mais adiante, (devemos ser ) “uma nação que se alia a democratas não a ditadores. Uma nação que pode inspirar e mobilizar outras para ultrapassar ameaças como a mudança climática, o terrorismo, a pobreza e a doença.“

“ … no regime democrático, o comandante em chefe não usa seus militares, homens ou mulheres, dispostos a arriscar tudo para proteger nossa nação, como parceiros políticos a serem convocados contra protestos pacíficos em nosso próprio solo. Eles compreendem que oponentes políticos não são antiamericanos apenas porque discordam de você, que a imprensa livre não é a inimiga mas a forma pela qual se pode atribuir responsabilidade a autoridades; que nossa habilidade para trabalharmos juntos para resolver grandes problemas como uma pandemia depende de sermos fieis a fatos, à ciência e à lógica e não simplesmente disseminar hipóteses sem base.”

“ …. Nenhum americano poderá reerguer este país sozinho. Nem mesmo um presidente. A democracia nunca pretendeu ser transacional - você vota em mim e eu torno tudo melhor. Ela requer uma cidadania ativa e informada. Por isso, peço que acreditem em suas próprias capacidades - para enfrentar suas responsabilidades como cidadãos - e garantir que os pilares de nossa democracia permaneçam inabaláveis. Porque é isto que está em risco agora: nossa democracia."

"E agora chego ao que interessa; este presidente e aqueles que estão no poder - os que se beneficiam ao manter as coisas tal como estão - contam com o cinismo de vocês. ... Esta é a forma como eles mantêm a economia direcionada para os ricos e os bem relacionados, como o nosso sistema de saúde deixará mais gente cair através de suas rachaduras. É como a democracia empalidece até que não haja mais democracia totalmente. Não podemos deixar isto acontecer. Não deixem que usurpem o seu poder. Não deixem que usurpem sua democracia. “

As citações acima são apenas umas poucas mais relevantes para fundamentar minha opinião inicial de que Obama é hoje o grande estadista da democracia, o melhor defensor do Direito Constitucional, matéria aliás em que se doutorou em Harvard. Não pretendo com isso ignorar suas falhas e omissões durante seus oito anos na Casa Branca. Apenas constato que Obama captou como ninguém que a democracia e os direitos fundamentais de justiça social foram estigmatizados em diferentes partes do mundo. Como as crescentes ameaças de autoritarismo estão a tornar a vida de democracias jovens, como a nossa, cada vez mais dependentes de vigilância e defesa da cidadania. Talvez, aí resida o caráter mais universal do discurso de Obama.

E agora, se você me permite, escolha uma boa hora do dia com paz suficiente para ouvir e ver Obama no original. Está nas plataformas. É uma aula de retórica. De uma sonoridade no compasso de um noturno de Chopin. E tão balística como uma folha seca do Didi.