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País - Artigo

Mingau quente

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN, artigosadhemar@yahoo.com

Mingau quente se come pela beirada. A última pesquisa DataFolha revela ter aumentado substancialmente o número de apoiadores de Bolsonaro em todas as regiões do país. O fenômeno é fugaz, dizem uns. O brasileiro não tem jeito, afirmam outros. Finalmente, muitos consideram a reeleição favas contadas.

Discordo das duas primeiras afirmações e considero a terceira prematura. Não sou analista político. Tenho apenas a pretensão de compartilhar minhas observações sobre o cenário econômico, político e social de meu país nesta fase desafiante para a cidadania brasileira e para o Estado Democrático de Direito. Sou, portanto, como espero seja você caríssimo leitor, um cidadão interessado em ver o Brasil livre das aberrantes distorções sociais a nos envergonhar como povo e como nação e me proponho, no limite de minhas instrução e experiência profissional, apenas dar opinião e expressar crítica sobre o que me pareça digno de uma ou merecedora de outra.

Não sou filiado a nenhum partido político. O debate franco nos permite sempre chegar a um acordo ainda que ocasionalmente à triste constatação de estarmos de acordo apenas em discordar. Devo ainda reafirmar minha inabalável crença nos ensinamentos de Pitágoras de ser a terra redonda, esférica. E minha descrença de o Trump ser a salvação do Ocidente, com as devidas vênias do Chanceler da República.

A pesquisa DataFolha não me surpreende e ao contrário dos pessimistas não me parece revelar uma decadência do povo brasileiro. Se nos concentrarmos em pontos essenciais, a resposta dada pela amostragem parece ser uma mensagem insofismável de apoio à democracia e ao desenvolvimento socialmente justo.

Não parece haver dúvida de o sentimento do povo ser de rejeição a tensões entre instituições, de recusa a uma política de ódio entre irmãos e de repulsa a movimentos autoritários ou bonapartistas.

Não deverá causar controvérsia a evidente satisfação sobre o impacto positivo das medidas de apoio financeiro do governo - com inegável e decisiva participação do Legislativo - aos desamparados pela pandemia e à maré de desempregados em consequência de políticas redutoras de direitos trabalhistas, ensaboadas em ideologias neoliberais.

A pesquisa DataFolha não encerra capítulo algum, nem reduz a crescente angústia com os males que sobre nós desabam neste ano bastardo, mas evidencia a mais contundente forma de repúdio a uma política social fora de uma eleição. E nela se inscreve seu valor como bússola para o governo em sentido amplo e para o futuro de nossa sociedade e nação. Que a pesquisa tenha desagradado ao ministro da Economia dispensa verbos, advérbios ou qualificativos. Bastaria lembrar a entrevista à imprensa em que Sua Excelência colocou o presidente da República numa zona de “impeachment“ caso ousasse optar por sugestões que não mereçam o "nihil obstat“ expedido pelo posto Ipiranga. (Sem querer, me recordei do Geisel e me perguntei quantos minutos duraria o ministro na cadeira se ousasse dizer coisa parecida naqueles tempos).

Ainda estou a esperar os trilhões de reais prometidos de cartolas diversas. Será retomada a cantilena de privatizar a Eletrobras, o Banco do Brasil como forma de não estourar o teto de gastos, totem neoliberal nos últimos tempos. Espécie de rosa dos ventos de uma macroeconomia tupiniquim, pedante e artificiosa, desconhecida no mundo civilizado.Ou quem sabe, veremos tentativas de cortar as dotações da educação pública, da saúde? E talvez sejamos presenteados com um novo imposto financeiro regressivo e universal como já se fala nos corredores e nas vielas. Taxar mais equitativamente os grandes ricos, nem pensar. Uma deselegância funérea.

A DataFolha revela uma sociedade submetida ao garrote espanhol de tanto desemprego, mas agradecida porque o auxílio emergencial terá evitado a milhares morrer de fome.Além dos exterminados pela pandemia. O Brasil transformado numa Biafra.

O recado da sociedade não poderia ser mais eloquente, mas, segundo os darwinistas de salão, o desenvolvimento social não cabe no teto de gastos e é cinicamente visto com supino desprezo por quem acredita ser o Brasil um grande banco bostoniano. Ou uma financeira no Rio de Janeiro. Ou um pasto aberto à volúpia e à pilhagem. Um eterno gigante de pés atados e braços abertos como espantalho inútil de predadores rapaces.

A esses importam apenas o lucro e os bônus. O resto é passar as falcatruas como quem passa boiada.

*Embaixador aposentado