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País - Artigo

Com todas as vênias

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN, artigosadhemar@yahoo.com

O presidente vetou porções interessantes de um projeto de lei sobre o uso de máscaras de proteção contra o covid-19. Agora, o brasileiro fica desobrigado de usar máscaras em recintos fechados como lojas, igrejas e não poderá ser multado se desrespeitar os dispositivos da lei. Estamos aos poucos roubando aos portugueses o direito de sermos alvos preferenciais da hilaridade. Vamos acabar sendo acusados de usar máscaras ao ar livre e de retirá-las nos recintos fechados. Vai dar no “New York Times”.

Esta determinação governamental vem-se juntar a tantas outras que já não nos surpreende mais nestes tempos em que nosso ministro da Saúde é um general intendente, cuja equipe de tantos outros militares permanece dedicada a tarefas certamente importantes mas que não são partilhadas com a sociedade. Reina o que nos meus tempos de jovem se chamava de barata voa ou de Matheus primeiro os teus. Não fossem as informações que nos chegam através da televisão, onde alguns abnegados infectologistas e pesquisadores nos alertam sobre a periculosidade do vírus, estaríamos todos a bater cabeças. Ou as canelas.

É bem verdade que aqui no Rio de Janeiro assistimos a barbaridades impensáveis onde o dinheiro público é despendido em compras abusivas e larápias em que uma máscara pode custar quatrocentos reais. Pior que isso só roubando bengala de cego.

De qualquer forma, agimos como se tudo corresse como manda o figurino e não fôssemos o segundo país do mundo em fatalidades e em casos de infecção. Nós mais uma vez estamos espantando a Europa, que já toma providências para que lá não entremos tão cedo. Vamos assim nos notabilizando por sermos um país em que Eros e Thanatos se abraçam num delírio tropical. Continuamos porém a perseguir os Estados Unidos que, como sempre, lidera maratonas em direção ao crematório. (Vide Iraque, Vietnam etc)

Ouço dizer que em certos altos e atapetados salões da República soam alarmes de que talvez Donald não seja reeleito. Chamo-o Donald porque assim se chama a quem bem nos quer e a quem bem queremos. Donald nos vem cumulando com afagos. E é comovente, antes de honrosa, a frequência com que lembra a seus eleitores sua amizade com nosso líder. Claro que invariavelmente faz uma referência respeitosa à forma desastrosa como estamos lidando com a pandemia aqui. Mas sempre acrescenta “but he is my friend”. Uau!

Não creio que ele tenha tido com qualquer outro país a gentileza que conosco teve de enviar toneladas de cloroquina. Não sei também se teremos que pagar o frete e o manuseio. Mas, mesmo assim... A cloroquina, como se sabe, abrevia o sofrimento dos pacientes graves do covid-19.

Não compartilho dos temores palacianos, acho que Donald vai emplacar mais quatro anos. Apesar de tudo, estamos falando de uma raposa rastejante, embora meio tresloucada. A quantidade de dólares que está a despejar na sociedade americana já movimenta a economia e daqui até novembro muita água passa debaixo da ponte. Para completar, Donald acaba de quebrar a banca e comprar toda a produção de medicamento eficaz contra o vírus. E no que errou até agora vai dar um botox antes da eleição. Se perder, será pela estupidez consagradora que demonstrou com aquela Bíblia na mão, como se fosse um taco de baseball, durante os protestos antirracistas em Washington. Ninguém é perfeito.

Estranha-se que nosso líder fique a dar ouvidos a nosso guru econômico que anda mais depenado que apequenado e continua a insistir que o Brasil não aguenta dar mais 600 reais para os desempregados e desassistidos. E, por cúmulo, anda com a ideia de jerico de dividir as parcelas em três ou quatro vezes. Pretende com isso ganhar o prêmio Nobel de infernizar a vida alheia, prêmio em que já se encontra como finalista ao lado do nosso ambientalista que vem tocando a boiada. Dividir as parcelas de auxílio emergencial é aumentar a Pandemia. Ou será que me equivoco?

Penso até que nosso líder deveria repensar esses valores. Talvez, quem sabe, distribuir para os necessitados um salário mínimo por mês até dezembro de 2022 .Não seria uma cartada digna do aplauso de Donald?

É o meu parecer. Com todas as devidas vênias.

*Embaixador aposentado