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Saudades do Brizola

Jornal do Brasil EVERTON GOMES, redacao@jb.com.br

“Os caminhos a gente encontra caminhando” (Leonel Brizola, em 7 de agosto de 2000)

O PDT, em seu processo de construção, recebeu influências diversas de pensamentos. Dos exilados que retornavam, dos que ficaram na resistência em solo pátrio e dos jovens que mantinham as organizações estudantis atuantes na clandestinidade.

O ano de 1980 foi, para os brizolistas, o rito de passagem entre a ruptura e a continuidade dos ideais trabalhistas. Brizola era nossa figura-síntese. Mais que líder. Uma espécie de guarda-chuva, que abrigava todas essas tendências. O influenciado e influenciador, em uma quase perfeita osmose política.

O PDT completou 40 anos (em meio à pandemia do Covid-19, a data não pôde ser festejada presencialmente).

Conquistamos a maioridade, sem a presença de Brizola, que morreu há 16 anos. E, não teve tempo de ver seu partido, hoje, inserido na quadra contemporânea da política, pois, embora sejamos a continuidade histórica do PTB de Vargas, Pasqualini e Jango (o antigo PTB de antes de 1964), demos ao trabalhismo um viés de filiação ao socialismo democrático.

Somos uma construção nativa, mas que se agrega à grande corrente da família socialista internacional. O PDT recebeu prestistas, terceiro-mundistas, libertários, social-democratas, anti-imperialistas, verdes. E, todos os que vieram em reforço às principais bandeiras.

O partido agrupou todas as correntes sem qualquer dúvida, com o sentimento de mudar o Brasil.

Brizola teve a capacidade de reinventar o trabalhismo. Quando foi eleito governador do Rio de Janeiro, em1982, ampliou esse universo ao ouvir e escutar, com regularidade, aqueles que os poetas definem como sal da terra. Os porteiros, os camelôs, as domésticas, os taxistas.

Consolidou o projeto nacional varguista, especialmente pela capacidade de encampar o amor pela pátria. Fez da perspectiva reformista de Jango uma bandeira de luta perene.

Defendeu a democratização da terra. Na educação, apontava os caminhos para lutas do presente. Dizia que sua realização, ao garantir escola em turno integral para milhares de jovens brasileiros, construiria um futuro melhor ao povo brasileiro.

Com o apoio de Darcy Ribeiro e de Oscar Niemeyer, Brizola construiu o Sambódromo.

O povão que o seguiu em vida, continua a lembrar do grande líder na Brizolândia. Essas vozes robustas e calejadas se tornaram o elo importante com o nosso querido povo brasileiro, tão citado e amado pelo líder Brizola.

O PDT é hoje o partido do povo. E de movimentos, como o que eu ajudei a criar e a manter, a Juventude Socialista.

Somos o Partido de muita gente diferente. Fizemos a opção pelos pobres; e, por aqui, respeitamos todos os credos, cores e orientações. Somos o Partido de trabalhadoras e trabalhadores do Brasil que optaram, lá atrás, em “botar o retrato do velho outra vez” – ato imortalizado na música de Haroldo Lobo e Marino Pinto. E de seus filhos, netos e bisnetos que percorreram o estado, em 1982, com “Brizola na Cabeça”.

Somos o Partido que hoje é inundado por uma juventude brilhante, que luta e que sente o desejo de virar a mesa e começar um novo jogo que coloque o Brasil no cenário mundial dentre as nações mais desenvolvidas e sustentáveis; mas que isto seja feito com soberania e inclusão social.

Temos o dever da esperança no peito, com muitos sotaques e muitas vezes também defeitos. Somos o Partido do Brasil, do verde e amarelo que defende, com unhas e dentes, as riquezas contra a espoliação.

Somos o PDT dos que partiram o partido quarentão mais contemporâneo do Brasil. Saudades do Brizola (Ele faz falta).

*Cientista político, vice-presidente da Fundação Leonel Brizola e porta-voz do Rio Boa Praça