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A inflexão de Bolsonaro, a frente democrática e a esquerda

Jornal do Brasil JOSÉ MAURÍCIO DOMINGUES, redacao@jb.com.br

Jair Bolsonaro, presidente do Brasil hoje, é um homem de extrema-direita, fascista na verdade. Seu primeiro ano e meio de governo foi se deslocando cada vez mais nessa direção. Mas deu meia-trava e ensaia agora mudança de rota que pode lhe dar um fôlego que há poucas semanas parecia se esgotar. Isso não quer dizer que a frente democrática que começava a frutificar seja menos importante, ao contrário.

Bolsonaro vinha relativamente bem, trabalhando sua base fiel e mantendo-se viável como governo e candidato à reeleição, apesar de desempenho abaixo do sofrível. A pandemia do coronavírus o pegou de mal jeito. Ele se mostrou inepto e tentou utilizar-se, equivocadamente, de uma estratégia negacionista, conflitando com os governadores, que adotaram políticas de defesa à vida. Bateu de frente com o STF e mobilizou o fascismo que viceja financiado por empresários e apoiado pelo que existe de mais truculento na sociedade e no Estado. Perdeu grande parte de sua base eleitoral na classe média, embora tenha avançado alguma coisa sobre setores mais pobres da população, por conta do auxílio emergencial de R$ 600,00 que concedeu, forçado pelo Congresso. Processos contra ele, seus filhos e apoiadores avançaram no STF e na justiça de primeira instância. A perda do ministro da Justiça, Sérgio Moro, acentuou seu isolamento.

As forças armadas avisaram, com poucas palavras aos bons entendedores, entre os quais se incluem os generais do governo, que não comprariam o barulho de Bolsonaro caso o impeachment viesse, após ele ter tentando ameaçadoramente mobilizá-los. Seus partidários estão sendo investigados e seu aparelho de intimidação, mentiras e difamação foi colocado na defensiva. Bolsonaro sentiu o golpe e descobriu que, embora mantivesse o apoio de 25/30% do eleitorado e sua avaliação não tivesse despencado, dificilmente sobreviveria se seguisse no rumo adotado. De forma a princípio confusa e limitada, os generais do planalto, que também entenderam serem mais frágeis que suas ameaças autoritárias sugeriam, começaram a remodelar o governo.

A primeira providência foi ganhar o apoio do centrão de modo a estabelecer uma base parlamentar regular e bloquear o avanço dos pedidos de impeachment. Sempre defensor do mínimo de legalidade constitucional, Rodrigo Maia, presidente da Câmara, nesse sentido pratica jogo ambíguo, porque apoia a agenda de Bolsonaro e Guedes para a economia e porque sabe que sem base real na sociedade e no parlamento o impeachment não prospera. Em seguida o grupo de generais ensaiou mudar a política econômica, mas esbarrou na força do inflexível Paulo Guedes. Quanto à pandemia, buscaram desimpactar e normalizar as mortes, que se mantêm em patamar elevado e para as quais não imaginam solução. Ademais, a bizarra reunião ministerial de 22 de abril foi-lhes no final útil. Permitiu que Weintraub fosse enfim defenestrado, tirando do governo voz que somente trazia problemas, substituído por operador de baixa patente que rapidamente perdeu substância, bloqueando, contudo, a ala de Olavo de Carvalho, que esperneia já há semanas. A decisão de investir pesadamente na fabricação da vacina de Oxford contra o coronavírus poderá consertar ao menos em parte a perda de popularidade que a atitude do governo frente à pandemia provocou.

Agora Bolsonaro tem que completar esse movimento. Terá coragem de se livrar de Salles – totalmente queimado com a confissão, naquela reunião, de que tudo quer destruir no meio-ambiente e rejeitado internacionalmente? Apostará no afastamento definitivo dos folclóricos e histéricos olavistas, a começar por tirar Araújo do Ministério das Relações Exteriores, sobretudo agora que Trump parece destinado a perder as eleições nos EUA? Sobretudo, estará o destino de Guedes selado ou persistirá o governo na sanha neoliberal ortodoxa, que nada tem a oferecer ao país nem a Bolsonaro e seu intento de reeleição? Segundo o FMI, o PIB do Brasil cairá 9,1% em 2020. A recuperação será lenta. A única coisa que Guedes tem a dizer é que o FMI errará e que as reformas devem continuar – o que interessa somente aos rentistas que querem manter a extração de recursos da sociedade e do Estado sem nada produzir.

O governo se move um pouco para o centro, taticamente, concilia com a oligarquia parlamentar conservadora e neopatrimonialista; tenta se estabilizar. Se a vacina contra o coronavírus aumentar repentinamente sua popularidade – inclusive às vésperas das eleições municipais –, somente a manutenção do auxílio emergencial e uma recuperação econômica razoável poderão abrir a via da reeleição, sobretudo se as oposições descobrirem os caminhos da unidade. Nos próximos meses ou talvez no início do ano que vem, ver-se-á até onde vai essa mudança. Mas que ela está avançando, está. O que há de mais extrema-direita no governo pode passar um período sob hibernação. Mas é só isso. Ninguém duvide de que Bolsonaro segue sendo o fascista que sempre foi e que seus generais não ficam muito longe disso, como os ministros Heleno e Ramos deixaram claro com suas ameaças de golpe. Uma vez fortalecido, inclusive após mudança mais pragmática no governo, Bolsonaro pode retomar a ofensiva contra as instituições democráticas.

A frente democrática segue sendo imprescindível. Neste momento, somente um escândalo de proporções maiores, em particular relativo a seus filhos e que o envolvesse pessoalmente, poderia levar ao impeachment de Bolsonaro. Caçar uma chapa no TSE por fake news financiadas por empresários é muito difícil (embora o TSE ainda mantenha essa carta na manga). Se recupera popularidade, mantém-se viável eleitoralmente e encara uma oposição dividida, Bolsonaro pode seguir com força eleitoral decisiva, inclusive nas próximas eleições municipais. Seria desastroso entregar-lhe novamente a presidência em 2022, legitimando sua visão de extrema-direita e uma nova ofensiva autoritária.

Nesse sentido, todos os que defendem a democracia no Brasil – liberal, muito oligarquizada, inclusive dentro das organizações de esquerda, mas pela qual a população, segundo pesquisas recentes, nutre grande apreço – têm de aprofundar sua unidade. A história cobrará duramente àqueles que a ela se negarem, mas o que importa hoje é bloquear os movimentos de Bolsonaro, fazer-lhe oposição consequente e garantir que seu mandato não passe de modo algum de 4 anos – talvez menos, se seus já inúmeros crimes de responsabilidade se mostrarem politicamente passíveis de punição.

Mas a esquerda, em todo seu espectro, tem também a tarefa e a obrigação de oferecer ao país desde já saída da crise econômica e social que caracterizará os próximos anos que seja diferente da de Bolsonaro, com ou sem Guedes, com o desenvolvimentismo dos militares ou fidelidade canina ao neoliberalismo. Somente assim será também possível influenciar o debate nacional e possibilitar a criação de um bloco capaz de mudar de modo mais consistente os rumos do país, a partir de uma coalizão democrática, voltada para os direitos e outro tipo de desenvolvimento, inclusive ambiental, que nos mantenha contemporâneos do mundo, longe agora da extrema-direita.

José Maurício Domingues é professor IESP-UERJ