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País - Artigo

Desmanches e desmandos

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN, artigosadhemar@yahoo.com

O presidente Trump, talvez azedado com a queda de sua popularidade nas pesquisas eleitorais, resolveu divorciar-se das políticas seguidas pelo presidente Bolsonaro no combate ao Covid-19.

Trata-se de uma injustiça - mais uma - de Trump. Afinal, tanto Bolsonaro quanto Trump pareciam atuar em perfeita sincronia na avaliação dos possíveis danos da pandemia e até mesmo na divulgação de tratamento da doença. Ambos em uníssono recomendaram a mesma droga. Aqui, Bolsonaro ordenou ao Exército que multiplicasse a produção da cloroquina e Trump passou a divulgar que tomava a droga diariamente, sem esclarecer se o fazia no café da manhã ou antes de dormir, o que muito confundiu seus seguidores. Por via das dúvidas, muitos a tomaram tanto no café da manhã quanto depois do Jornal das 10. Outros, mais precavidos ainda, resolveram tomá-la como tranquilizante necessário para aguentar o Jornal Nacional, panfleto audio-visual segundo a avaliação dos serviços especializados das comunicações.

Tudo corria mais ou menos como previsto, a tal ponto que Bolsonaro sempre repetia que o Convid-19 seria uma gripezinha principalmente para os que, como ele, tinham passado de atleta. Sua Excelência aduziu ainda que só os covardes evitavam o trabalho em nome da pandemia. Os machos a enfrentavam de cara e sem máscara. Que os incomodados enfiem a carapuça.

Quando a pandemia estourou em Nova York, Trump engoliu em seco e se transformou em tio Patinhas. Derramou bilhões de dólares para sustentar a economia e evitar a rebelião de seus eleitores. Para ele é fácil, porque detém o controle da maquininha de fazer dólares.

Aqui no Brasil levou um certo tempo para que o nosso ministro da Economia se acomodasse a giro tão radical em seus princípios neoliberais e até se rebelou diante de outros ministros, talvez menos ideológicos, que propuseram uma política econômica de viés keynnesiano. Guedes ameaçou renunciar.

Bolsonaro demite Mandetta e pretende por a bola no centro do campo. O novo ministro da Saúde logo percebe que tem um título, mas falta-lhe um ministério, agora já devidamente aparelhado com oficiais do Exército muito predispostos a tornar a cloroquina uma prescrição saudável. Apoiado pela classe médica, o honrado ministro Nelson Teich pede o boné. Exunt all.

O novo Ministério da Saúde suspende os encontros diários com a imprensa, inaugurados por Mandetta e equipe que alertavam sobre a importância do isolamento social. A população brasileira passou a não saber, ou só saber tarde da noite, que o vírus em poucas semanas a dizimava à velocidade de uma vida por minuto e que o Brasil ascendia a posições privilegiadas pelo demônio da pandemia.

Bolsonaro, no meio tempo, se vê constrangido a desviar sua alta atenção para miasmas emitidos por ex-aliado a acusá-lo de vis cabriolas que o obrigam a se dedicar a desfazer insultos e aleivosias. Arma-se um disse-que-me-disse de comadres que ignoram o pensamento estratégico de Sua Excelência nessas horas terríveis da travessia em direção ao Brasil novo.

Eis que levanta-se contra nós a clava forte de Trump e em entrevista televisionada nos aponta como o pior país no controle da pandemia, esquecido de que pensávamos juntos e trabalhávamos na mesma direção. Para cúmulo, Trump nos doa algumas centenas de milhares de cápsulas de cloroquina e insinua que nos deu apoio bem mais substancial, com máscaras, respiradores e equipamento de proteção médica. Golpe baixo, que Sua Excelência cavalheirescamente não acusa nem recusa.

Mas, o que aqui se faz aqui se paga. Poucos dias depois um dedicado policial americano detém em praça pública um falsário afro-americano e - consciente da exceção de ilicitude - imobiliza-o com o joelho na traqueia. Devido, provavelmente, à infeliz co-morbidade do detido, a joelhada tem efeito mais viral que o Convid-19, para surpresa do policial desarmado.

Trump detecta que seus inimigos traiçoeiros iriam sair pelas ruas em movimentos anti-patrióticos e em arruaça irresponsável. Anuncia a mesma estratégia que Sua Excelência advoga em situações semelhantes: chamar tropas do Exército para acabar com aquele “chienlit" como a denominou em 1968, o Grande General De Gaulle. Com esta manobra de mestre, Trump será reeleito para gáudio de todos os progressistas aqui e em Wall Street.

A um estadista como este, tudo se perdoa. Inclusive o esquecimento momentâneo de não convidar Sua Excelência para a reunião do G7 ampliado, que Trump pretende convocar em solo americano, em setembro próximo.

Durou pouco a involuntária indelicadeza. Logo os jornais brasileiros anunciavam que brevemente o convite de Trump chegaria à chancelaria brasileira. E assim, como se fosse um "antes que me esqueça, um à propósito” os jornais noticiam que muito provavelmente o Itamaraty contará em breve com um conselheiro especial para o chanceler brasileiro.

A sugestão se assim me permite opinar Sua Excelência, vem, como diria nosso Machado de Assis, como a mão para a luva. Pelo que se especula, as credenciais do possível candidato são inatacáveis. Amigo de 01, o candidato descende de mãe americana e pai brasileiro, controla uma financeira em Wall Street e, ainda por cima, é ligado por laços de amizade a Steve Bannon - patrono dos movimentos da nova Direita- e admirador admirado do filósofo de Virginia. Melhor que isto só dois disto.

Há quem suspeite que essa generosa proposta dos americanos seja uma moeda de troca pela presença de Sua Excelência no G7. Maledicência a que não se deve dar ouvidos. Haverá talvez algum inconveniente em que o cidadão que não passou pelo treinamento da Casa de Rio Branco tenha acesso às comunicações sigilosas entre as Embaixadas brasileiras e a Chancelaria em Brasília. Mas, se nos detivermos melhor nesta questiúncula, logo se verá que nossos embaixadores muito agradecerão às orientações que do Conselheiro especial chegarão às Embaixadas, recortando aqui e ali, certos exageros a que a burocracia estatal, por melhor treinada que seja, não está imune. Além do que nossa cooperação estratégica com os Estados Unidos será muito mais intensa.

Acredito até que essa experiência muito agradará ao ministro da Economia, que proclama a eficiência do rodízio entre agentes privados e a função pública. Aliás, coisa que ja se faz de há muito com funcionários de grandes bancos brasileiros e as funções estatais de natureza financeira, em especial o Banco Central.

Não será talvez por outra razão, que nessa difícil gerência da pandemia, nossos economistas no Ministério da Economia e seus arredores, se mostram tão intratáveis quando se discute a possibilidade de uma reforma tributária progressiva com vistas a reduzir o desnível social no Brasil. Só a vivência superior trazida pelo mercado pode proporcionar tal percepção.

Mais um pouco de cintos apertados, logo-logo voltaremos a decolar com o Comandante Guedes. À frente, só temos a evitar o Pão de Açúcar. Se optarmos pela esquerda sobrevoaremos Niterói e poderemos avistar ,ou não, o aprazível forte de Rio Branco. Se pegarmos a direita, uma sucessão infinda de belas praias, de Copacabana até a Restinga de Marambaia. Se olharmos um pouco para dentro do continente, milhares de plantas brancas cruciformes. Recordação inapagável da pandemia. Manda o bom gosto ignorar.

A partir daí, deslizaremos em nuvens suaves como algodão doce ou tenebrosas e prenhe de serpentes de enormes presas encardidas de sangue.

Tudo depende do plano de voo de Sua Excelência. E da proverbial cordialidade do povo brasileiro. Ou o que dele restar.

*Embaixador aposentado