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Turbulência

Jornal do Brasil GUILHERME FAINBERG, redacao@jb.com.br

Outro dia, estava passando por uma banca e escutei : “- ah, para... Psicanalista vive de passado, vai procurar o seu! - Presente!”                          

Um psicanalista pode viver de diversos modos, menos de passado. É quem menos vive disso.

Aquilo que leva o sujeito ao divã (a queixa, o incômodo), mostra que algo do passado se faz presente. E, dentro de uma lógica de “re-sentir”, busca algo lá de trás, difícil e penoso para ser vivido e sentido no presente, com objetivo de não se ter futuro. Esta é a topografia do ressentimento.

Sendo assim, este “passado” não passou, está aqui. Agora.

Muitas pessoas fazem mal uso dos sentimentos. Muitas pessoas tomam a angústia como saudade. Insistindo nessa dissonância cognitiva, repetem. E, mal utilizando a saudade, esta vira nostalgia.

Muitas pessoas fazem mal uso do sentimento. Vou chamar de “sentimento do erro”, cuja tradução acaba sendo “culpa”. E buscam, então, um contra-sentimento - uma reparação.

Mas, esta parte do a priori que teríamos um culpado e pelo menos uma vítima. É uma relação assimétrica, onde temos a política da gangorra.

Se você parar para pensar, nessa história toda existe uma certa lógica do vencedor, onde deve ter um perdedor. Nunca todos podem ganhar.

Contudo, no parquinho existem muitos brinquedos...

No mundo social, isto simplesmente não interessa. E, no mundo privado, aniquila o nosso narcisismo.

Existe o narcisismo bom, não só o mal

No entanto, existe o narcisismo bom - não existe só o mal, ou de morte.

O narcisismo de vida é aquele em que o sujeito pode gerar vida ao mesmo tempo em que é gerado; em que cada ação, cada palavra e cada empreendimento é algo novo e inédito. Novo, não pela retomada do velho mas, sim, por aquilo que se é.

Fica aberta uma nova possibilidade de se olhar e contemplar o mundo externo, pensando sempre na lógica do avião em turbulência: - Quer ajudar o homem da banca? Primeiro, coloque sua máscara (narcisismo de vida) e, depois, a do outro.

Guilherme Fainberg é médico psicanalista