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Pandemia e memória

Jornal do Brasil LÍDICE LEÃO, lidicele@hotmail.com

Diante da pandemia, dos desmandos presidenciais, do sofrimento que o vírus tem causado nas pessoas que ficam e da finitude das vítimas que vão, tenho pensado muito na questão da memória. Como essa época de obscurantismo será elaborada nos dias futuros e na (re)construção de cada um de nós. De quem pôde ficar em casa a se resguardar, de quem teve de sair para trabalhar e garantir o sustento não assegurado pelo governo federal, de quem perdeu alguém próximo, de quem perdeu um conhecido distante e querido. Dos jovens, das crianças. Dos velhos. Dos desprezados e estigmatizados velhos.

 

De que forma as vítimas que tiveram entes amados arrancados prematuramente enxergarão os números finais da pandemia. Centenas de mortos a cada dia. Milhares ou milhões no total. Talvez todos os homens brancos do poder demorem a elaborar que os números eram pessoas. Talvez nunca elaborem. E a dor da perda seja para sempre contida apenas entre os familiares dos mortos. Até que um dia todos os familiares também morram e a dor, que nunca atingiu quem manda e quem decide, se esvaeça. Como a reflexão de Annie Ernoux em “Os anos”: todos vamos morrer; um dia viraremos um retrato na estante dos nossos descendentes mais próximos, até que, após décadas e décadas, não seremos mais nem isso. E com essa partida eterna, irão também a dor, a experiência, o vivido.

 

Por isso é tão importante o destaque a ações atuais que humanizem a dor, os fatos relacionados à pandemia, à catástrofe que se espalha em velocidade exponencial, principalmente entre a população economicamente mais vulnerável. Ao abrir minhas redes sociais recentemente, me deparei com o site “Inumeráveis”, que nomeia cada morto pelo coronavírus e dá a eles uma idade, uma história, um contorno de vida. Depois de ler alguns trechos, o coração fica apertado, com um misto de ternura e tristeza. É bonito saber que, em meio ao ódio e à ignorância que partem do Planalto, uma mulher – a jornalista Alana Rizzo – teve a sensibilidade de criar um espaço para humanizar o que para os mandatários são números.

 

Outra iniciativa de solidariedade, ou, neste caso, de sororidade, no cenário do caos: diante do aumento dos casos de violência doméstica, divulgados constantemente pela imprensa, a promotora de Justiça Fabíola Sucasas me apresentou, em entrevista, o aplicativo PenhaS. O dispositivo foi criado pelo instituto AzMina, que, como as próprias integrantes definem em seu site, combate os diversos tipos de violência que atingem as mulheres brasileiras. A vítima baixa o aplicativo no celular e tem acesso a formas diversas de se informar, criar redes de proteção e agir, nas palavras do portal. O aplicativo é anterior à pandemia, mas tem sido amplamente divulgado nos últimos meses.

 

Impossível não lembrar também, como já citei aqui neste espaço, das incontáveis ações de solidariedade e apoio a comunidades e movimentos sociais. Grande parte dessas ações lideradas por mulheres. Mulheres de luta cheias de coragem e afeto. É como se, em meio a uma luta corporal ou um diálogo árido entre contrabandistas e bêbados escrito por Hemingway aparecesse um respiro de pintura literária e memória de infância nas palavras lapidadas por Proust quando o narrador come o pedaço de bolinho doce molhado no chá.

 

A reflexão sobre como cada uma de nós irá elaborar este momento e a forma de transmissão para as gerações futuras é fundamental. Está nas nossas mãos lembrarmos, a cada dia, que o então presidente tentou transformar em números aqueles que sabemos ter uma história. Está nas nossas mãos cuidarmos para que o erro da eleição passada não se repita, nem como farsa nem como tragédia.

 

Lídice Leão é jornalista, pesquisadora e mestranda em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo.