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Angela Davis no Brasil e o legado de Marielle

Jornal do Brasil LÍDICE LEÃO *, lidicele@hotmail.com

Foram quinze mil pessoas no Ibirapuera, em São Paulo, numa noite de segunda-feira. Na plateia, majoritariamente feminina, representantes de várias classes sociais – desde movimentos da periferia até estudantes e intelectuais – e raças aplaudiram a filósofa e ativista estadunidense, de 75 anos. Dias antes, Angela Davis falou em um evento fechado, que teve os ingressos esgotados em poucos minutos. A iniciativa de trazer Angela Davis ao Brasil em um momento tão necessário e adequado foi, também, de uma mulher: Ivana Jinkings, editora da Boitempo, que lança, neste momento, a autobiografia de Davis.

Paralelamente à vinda de Davis pela oitava vez ao país, eu fazia uma palestra sobre feminismo em Itatiba, no interior de São Paulo, para uma plateia de professoras, estudantes, donas de casa, jornalistas, enfermeiras, mulheres de variadas atividades. Mulheres que participaram de forma intensa, com questões e falas sobre violência doméstica, feminicídio, racismo, machismo em ambientes corporativos e a importância da solidariedade entre todas as mulheres para que, nas palavras de Angela Davis, a luta seja constante. O tema que escolhi para a palestra foi, justamente: “Juntas somos mais fortes – como a empatia e a sororidade podem tornar as mulheres mais poderosas”. E quando falo para mulheres no interior de São Paulo e as participantes se ouvem, trocam ideias, se aplaudem, se abraçam, sinto que a luta constante avança e que, a despeito do momento obscuro que atravessa o país, existem muitas cabeças que pensam e muitos braços unidos que podem mudar as coisas.

Afinal, dezenas de milhares de pessoas foram ver Angelas Davis lembrar o legado deixado por Marielle Franco e a importância da libertação da ativista Preta Ferreira. Há esperança, minhas amigas e meus amigos. Enquanto há luta constante, há perspectiva.

Preta Ferreira ficou presa por mais de cem dias, acusada de cobrar uma taxa de moradores de ocupações, cobrança essa aprovada em assembleias das pessoas que participam dos movimentos. Houve uma grande campanha pela sua libertação, que aconteceu recentemente. Angela Davis classificou a soltura de Preta como “vitória”. “Temos que celebrar nossas vitórias”, exaltou a filósofa. “A vitória da mulher preta, ativista, de classes menos favorecidas. O movimento não é só ‘libertem Preta’; é libertem as pretas”.

Quando mulheres se unem, ficam mais potentes. E, como afirmou a promotora de Justiça Fabíola Sucasas – que trabalha no combate à violência doméstica no Ministério Público – em vídeo exibido na palestra no interior paulista, quando pensamos em violência contra a mulher, precisamos pensar na violência que sofre a mulher negra, da periferia. A afirmação da promotora dialoga diretamente com a fala de Angela Davis sobre o movimento que tomou o país pela libertação de Preta Ferreira: “o movimento não é só libertem Preta. É libertem as pretas! Mulheres pretas livres significam liberdade para todos e todas”. Os aplausos foram muitos após essa manifestação da filósofa. Mulheres são capazes de dialogar, mesmo em pontos distantes, para plateias distintas.

Este diálogo nasce e se fortalece porque, mais uma vez, nas palavras de Angela Davis, a luta das mulheres é constante. E quando se fala sobre luta constante, fala-se sobre Marielle Franco. Davis lembra que a vereadora, socióloga, feminista, ativista pelos direitos dos jovens negros da Maré sabia que a liberdade era uma luta constante, e o seu legado continua a ser defendido por aqueles e aquelas que levam adiante a luta contra o racismo, a violência, a homofobia, a destruição do meio ambiente. “Marielle presente!”, disse Angela Davis, seguida de muitos, muitos aplausos.

* jornalista, pesquisadora e mestranda em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo