Ditas e desditas

O Brasil está a se tornar um país ridículo. Lamentavelmente ridículo. Absurdamente ridículo. Mais ridículo do que se espera de um país ridículo.

Ridículo na forma. Ridículo no conteúdo. Ridículo na sua política econômica. Estupidamente ridículo na sua política externa. Irracionalmente ridículo na política educacional. Canhestramente ridículo na política de direitos humanos. Desastrado e ridículo na política de meio ambiente. O Brasil está a se tornar um país risível, marginal, sustentavelmente ridículo. O que Trump se permitiu fazer com o Brasil, só se faz com um país ridículo. O que fizemos para Trump nos tratar como ridículos é evidentemente ridículo.

Quem não se lembra que nosso chanceler ridiculamente enalteceu Trump como a última flor culta e bela do Ocidente e se lançou numa aproximação acrítica da política externa dos Estados Unidos? Quem não se lembra de que nosso ministro da Economia se expôs ao ridículo de fazer palestras aos endinheirados de Wall Street anunciando que as estatais brasileiras estavam a ser vendidas na bacia das almas? Quem não se lembra que nossa ministra responsável pelos Direitos Humanos apregoou que os meninos se vestem de azul e as meninas de rosa? Quem não se lembra de que nosso ministro da Educação dançou com um guarda chuva aberto em seu gabinete, Gene Kelly do cerrado, a distilar sua empáfia e sua obtusidade diante da mais sensível de nossas ferramentas para o desenvolvimento econômico? Quem não se lembra do ministro do Meio Ambiente a debochar do Acordo de Paris, de nossa política ambiental até então respeitada por toda a comunidade internacional e hoje universalmente ridicularizada?

Quem não se lembra do Presidente a levar seu filho para a entrevista com Trump no epicentro oval do poder e deixar seu chanceler nos corredores da Casa Branca? Como um pai equivocado, em visita à Disney se preocuparia em levar o promissor rebento a apertar a mão do Pateta, como se fosse a de Roosevelt.

E mais ridículo ainda, ver o ministro da Economia anunciar aos quatro ventos que o Brasil em dois meses assinou tratados comerciais que os governos antecessores não ousaram fazê-lo nos últimos 20 anos. A quem o Posto Ipiranga pensa enganar quando arrola um acordo comercial desigual e leonino como um dos grandes sucessos da política econômica?

Ridícula esta política econômica enredada em um cipoal de ideologias acachapantes do Estado e empobrecedoras das classes médias e menos médias, dos servidores federais, estatuais e municipais que, do dia para noite, se viram transformados nos párias da Pátria. Ridícula e insensata política econômica que se preocupa em cortar a renda e salários dos mais pobres, temerosa e acovardada diante de forças a que ridiculamente reverencia, protege e acalenta como se delas pudesse vir o investimento na educação, na saúde, na infraestrutura de que tanto necessitamos e tantos braços dele dependem para o pão de cada dia.

Merecemos sim a grosseria da máquina burocrática devastadora de Trump. Como dizem os próprios americanos, mais do que insultados fomos injuriados, porque não só não se deu o que nos foi prometido, mas também porque, ao fazê-lo, fomos lançados ao ridículo e ao risível por termos dado crédito a palavras sabidamente descomprometidas com a honra dos homens e a dignidade das Nações.

Riem de nós os que nos viram aceitar graciosamente a imposição de compras do trigo, do etanol sem contrapartida. Riem de nós os que justamente se preocupam com base de Alcântara. Riem de nós os que viram o nosso abandono do direito de tratamento especial e diferenciado, a que temos direito tanto quanto Argentina e a Romênia, de quem não se exigiu idêntica deferência.

Abrimos mão, em nome de um hipotético apoio para entrar num clube de bacanas, de milhões de dólares tão necessários ao Tesouro Nacional. Fomos duplamente discriminados não só porque abrimos mão de um direito que nos unia a grande número de países, dentre os quais a China, iguais ou muito mais desenvolvidos do que nós, mas também porque nos tornamos um país tóxico nas negociações internacionais na Organização Mundial do Comércio ( OMC) onde nosso embaixador foi vetado pelo governo da Índia para presidir grupo de trabalho para discutir a questão do tratamento diferenciado naquela organização.

Pior do que o veto indiano foi a insistência dos Estados Unidos na designação do Brasil, fazendo de nos publicamente um país cliente, subalterno e vassalo. Riem de nós nos quatro continentes. Riem de nossa ridícula e amesquinhadora política externa, tingida e tangida pelas mesmas crenças ideológicas que levaram ao desemprego mais de treze milhões de brasileiros.

Política econômica que, a cada dia que passa, diz o dito pelo não dito, o esperado pelo inesperado, o certo pelo duvidoso. Por maiores e mais autorizadas que sejam as vozes que alertam para a insanidade de uma política cruenta, mais indiferentes se tornam os ouvidos de nossas autoridades econômicas e de seus ricos beneficiários putativos. Acumulam-se as evidências que caminhamos por caminhos estreitos e pedregosos em que a cada dia nos surpreende uma frase indevida, um chiste impiedoso, uma ameaça cada vez menos velada e sempre mais revestida de ódio.

Consola e revigora, porém, a palavra serena dos justos, como a do jurista Ayres de Brito, que em recente entrevista televisionada, nos mostrou, numa bela aula de civismo, que a Constituição de 1988 é o nosso Norte e a salvaguarda de nossa democracia e de nossos direitos fundamentais.

Impedir que a desfigurem com reformas indevidas deveria ser nosso principal objetivo nesta hora miserável em que vivemos. Só assim poderemos restaurar o Estado Democrático de Direito que deve pautar as ações de nossos governantes diante do Brasil e diante de uma terra humanamente habitável. O Brasil, por suas dimensões geográficas, pela diversidade de seu povo, pela riqueza de seu solo e de seu mar, rios e florestas, jamais será um país ridículo como, por gestão fraudulenta, nos estamos tornando.

* Embaixador aposentado