O Brasil na ONU

Tenho alguns quilômetros rodados na ONU. Vi presidentes brasileiros abrirem o debate geral. Temos a honra de sermos o primeiro país a falar, o que garante casa cheia, em grande parte porque, logo depois, sempre fala o Presidente dos Estados Unidos. A honraria tem origem críptica. A mais divulgada relembra a atuação de Osvaldo Aranha para o ingresso de Israel nas Nações Unidas. Outra, decorreria de o Brasil - único país da América do Sul a combater junto aos aliados na Segunda Guerra Mundial -, ter sido vetado tanto por Stálin quanto por Churchill como membro permanente originário do Conselho de Segurança, órgão com poder mandatório na Organização. Seja como for, a honraria não é desprezível e, ao contrário, invejada. Já houve protestos que soubemos até hoje contornar. Não sei se o discurso de Bolsonaro terá contribuído para aprofundar ou minar o consenso internacional em torno desta prática. Veremos. Ainda temos pelo menos mais três Assembleias-Gerais até o fim de seu mandato.

Coincido com as críticas ao discurso tanto no tom quanto na substância. Em ambos fluiu um rancor raro contra a Organização, seus fins e seus propósitos. A afirmação do presidente de que a a Organização das Nações Unidas não deve preocupar-se com uma ordem mundial “abstrata” ignorou um princípio básico da Carta das Nações Unidas. A alegação de que entidades de direitos humanos e a própria Nações Unidas teriam dado respaldo ao trabalho escravo no “Mais Médicos“ certamente a ofendeu.

A Assembleia não se reúne para ouvir problemas internos de seus países, mas para somar esforços na consecução de objetivos inscritos em sua agenda de trabalhos. Uma das razões que muito contribuiu para a permanência do Brasil como primeiro orador foi a preocupação que sempre tivemos em analisar a ordem do dia da agenda internacional, ressaltar seus pontos fortes, minimizar os fracos e contribuir para um trabalho comum em torno de metas comuns. Há discursos brasileiros que se tornaram referência na história da Organização como, para só citar um, o de Araújo Castro sobre os três Ds, Desenvolvimento, Desarmamento e Descolonização, que marcou a década de 60 e além dela.

Há quem diga que o discurso de Bolsonaro não teria partido de um texto básico sempre elaborado pelo Itamaraty. Não sei nem quero saber. Mas, não posso deixar de registrar que o discurso de posse do atual Chanceler terá contribuído para semear alguns conceitos que aparecem no texto, dentre os quais citaria as noções peculiares sobre aquecimento global, globalização e soberania. É preciso não esquecer que o ministro das Relações Exteriores acusou o Itamaraty de “ficar de costas para o Brasil” e anunciou uma nova era diplomática em que nos veríamos livres de uma política subordinada a interesses ideológicos, antagônicos aos interesses maiores do país e do mundo ocidental.

A partir desta imersão político-filosófica, vimos uma série de passos e contradanças que culminam, em menos de um ano, numa performance desastrosa de nossa política internacional, que não só nos isola no plano multilateral, mas também nos prejudica em relações bilaterais, com consequências econômicas para exportações do agronegócio.

A filosofia olavista, perfilhada por Esnesto Araujo, precisa ser precificada. Mas, não duvido que tenha acrescido o malfadado risco Brasil junto a economias desenvolvidas na Europa e na Ásia. A recente notícia de que os argentinos nos tenham superado em exportações de carne para a China talvez não seja mera coincidência.

Nosso ministro advoga filosofia barata de custo alto. Sua descrença sistemática nos relatórios científicos sobre meio ambiente e aquecimento global instiga as observações do presidente sobre a inutilidade do acordo de Paris, respalda a política pouco criativa do ministro do Meio Ambiente e gera uma desconfiança de nossos reais propósitos em relação à Amazônia, desde a menção à lavra de minérios até a derrubada ilícita de árvores. Se há uma área em que se pode louvar a estrita cooperação entre agências do governo é exatamente na questão do meio-ambiente em que quando um diz “mata” o outro entende e ecoa “esfola”. Em oito meses ou menos destruiu-se um trabalho diplomático primoroso — e um cala-a-boca geral — desde a conferência do Rio de Janeiro em 92, quando o Itamaraty estaria ”de costas para o Brasil”.

O chanceler contribui para a confusão entre globalização, suas virtudes e defeitos, e globalismo, conceito impregnado de ideologia. Com isso, no discurso de Bolsonaro intromete-se uma incompreensível acusação a um Brasil socialista, em fase de recuperação pela cutelaria ultraliberal de Guedes.

Só a partir desses elementos se pode compreender o paradoxo da defesa territorial da soberania na Amazônia em contraponto com a posição acritica em relação à perda da soberania econômica com a aceitação de regras leoninas impostas por acordos comerciais recentemente firmados e não firmados que, no último caso, nos tem levado a compras sem reciprocidade de trigo americano e a demanda por importação do etanol, carinhosamente proposta por Trump.

Macron jogou-nos uma isca, mas nada justificava que caíssemos nesta armadilha. Pior, atribuímos de público que dela só saímos pelo apoio de Trump no G7.

O discurso de Bolsonaro carece de dois elementos fundamentais: de diplomacia menos ideológica e de melhores redatores. Em ambos os casos é lamentável a omissão voluntária ou não do Itamaraty, a quem cabe zelar pela boa condução de nossa imagem externa. A ideia de se contratar empresa de construção de imagem para sanar impropriedades verbais de altas autoridades brasileiras é inútil e onera o Tesouro Nacional. Por mais difícil que seja, o papel primordial de um bom chanceler é o de alertar o presidente até para os riscos de confundir a ONU com a caserna. Pode acabar em demissão, mas a função tem riscos. Fora disso, o chanceler termina como o ciclista, que se curva para cima e pisa para baixo.

O discurso do presidente Bolsonaro seria excessivo até mesmo no auge da guerra fria. Transferir a polaridade interna para o mundo, suscita, como suscitou, críticas universais. Cabe ao bom chanceler evitar que esse risco se reproduza e contamine não só a imagem, mas também os negócios do Brasil. Como costumavam dizer nossos vizinhos, com respeito e admiração: “El Itamaraty no improvisa”. Bons tempos.

* Embaixador aposentado