Jornal do Brasil

País - Artigo

Suicídio: menos discurso, mais acolhimento

Jornal do Brasil LÍDICE LEÃO, lidicele@hotmail.com

Sim, precisamos falar sobre suicídio. Mas só falar já não basta. Desde o início do mês o tema tem sido destaque em toda a mídia. O “Setembro Amarelo” é legítimo, importante, fundamental. Evidentemente, é melhor abordar o assunto, a sua gravidade e alertar para os números do que não fazer nada. Sou de uma época em que as redações não noticiavam suicídios, sob o argumento de que a divulgação poderia “incentivar” novos casos; recalcava-se o problema, mas o sintoma estava lá – nas vítimas que não aguentavam o sofrimento e colocavam fim à própria vida. Hoje, o suicídio não só é noticiado, mas também é debatido, estudado, pesquisado. Providências decisivas no combate ao problema são tomadas.

Porém, a despeito de toda a campanha e dos vários tons de amarelo que pintam cartazes, postagens, reportagens, campanhas publicitárias, mulheres continuam a sofrer violência física e psicológica em casa, no trabalho e na rua; seguem sendo julgadas pela aparência – episódio recente protagonizado pelo político que ocupa o mais alto cargo de governo aqui no país repercutiu mundo afora –, tom de voz, roupas, relacionamentos sexuais e afetivos, entre outros critérios, determinados por uma sociedade historicamente androcêntrica e machista, para classificar as mulheres desde sempre. E antes que venham me acusar de mimimi, seguem dados do Ministério da Saúde reproduzidos no site do CVV – Centro de Valorização da Vida: homicídios e suicídios representam 83% das mortes por causas externas em mulheres que sofreram agressões. As vítimas de violência têm 151 vezes mais riscos de serem assassinadas ou de tirarem a própria vida do que as mulheres que não passam por esse tipo de ataque. De acordo com o CVV, “a constatação é que a violência é determinante no caso de morte de mulheres por suicídio”.

A violência psicológica a que muitas mulheres também são submetidas, em casa ou no trabalho, entra no rol da agressividade naturalizada pelo ambiente que cerca as vítimas desde a sua pré-história. São situações de discriminação, preconceito, diferença de tratamento entre gêneros, desvalorização das ações, das falas e dos desejos femininos, que atravessam gerações, penetram na forma de pensar e agir de famílias, corporações e grupos em geral, e provocam um sofrimento crescente e, muitas vezes, inconsciente nas mulheres; elas sentem uma inadequação àquele círculo, mas não conseguem explicar e nem entender o porquê, afinal nada está fora do “normal” do “natural”, das cenas que assistiram desde que nasceram e que suas mães presenciaram enquanto as traziam na barriga. Individualmente, essas mulheres vão procurar formas de aliviar, tratar esse sofrimento e, quando menos se espera, quase todas as integrantes de um determinado grupo – funcionárias de uma empresa, alunas de um curso ou parentes em uma mesma família, por exemplo – estão tomando antidepressivos tarja preta ou algum ansiolítico.

Não há aqui qualquer crítica ao uso desse tipo de medicamento, que pode ser eficaz ou até essencial no tratamento de determinadas patologias se prescritos por profissionais responsáveis. A questão é a doença que acomete tantas mulheres ao mesmo tempo no mesmo ambiente. Também cabe reforçar que não é qualquer tipo de sofrimento que pode culminar em suicídio. Há fatores neurológicos, genéticos, características estudadas detalhadamente pela classe médica. Porém, assim como a exposição contínua do corpo ao clima frio sem agasalho adequado pode provocar pneumonia, a falta de acolhimento ou atenção necessários a um sofrimento psíquico pode resultar em depressão. Tanto no caso da pneumonia, quanto no da depressão há risco de morte.

Portanto, precisamos falar sobre o suicídio de mulheres – e de homens, de jovens, de idosos, de adolescentes. Sim, precisamos. Escrevi sobre essa necessidade urgente neste mesmo espaço há um ano. Mas agora é hora de dar um passo à frente: precisamos acolher as pessoas. Precisamos nos virar para o lado e perceber o sofrimento da colega. Precisamos ouvir o desabafo da vizinha que anda cabisbaixa e de olhos sempre vermelhos. Precisamos ajudar a idosa a atravessar a rua e puxar conversa com a adolescente triste que encontramos no elevador.

Sim, vamos debater, discutir, fazer campanhas, alertar para o perigo do suicídio. Mas, acima de tudo, vamos tirar os olhos do celular e encarar com acolhimento e sorriso quem está ao lado.

* jornalista e mestranda em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo