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Estados Unidos e Brasil:parceria ou dependência?

Jornal do Brasil ADHEMAR BAHADIAN

Tive a sensação de estar vendo a “Noviça Rebelde 4.0”. Trump se dirige a jornalistas nos jardins da Casa Branca. Num passe de mágico de Oz, escolhe uma jornalista brasileira para fazer-lhe a primeira pergunta. De bate pronto, elogia a escolha do provável futuro embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Agrega pretender fazer um acordo de comércio com o Brasil. Finaliza comentando que não sabia da intenção do governo brasileiro e quase agradece a jornalista pela informação privilegiada.

Você se encantou com esta encenação? Se marcou x na resposta, parabéns. Você acaba de conquistar o lugar do Pateta na parada da Disney que o governador WW pretende trazer para o Sambódromo.

Cena dois. Chegam ao Brasil, quase simultaneamente, os ministros das relações exteriores da França e o do comércio dos Estados Unidos. Em conferência para empresários na Câmara de Comércio Brasil- Estados Unidos, Dr. Ross distribui algumas pílulas da sabedoria americana. Uma delas, ressuscita o famigerado fantasma do Acordo de Garantia de Investimentos como “precursor” de um acordo de livre comércio. Coisa simples, pensam alguns. Tarefa impossível, dizem outros mais realistas. Em seguida, o golpe de florete: o recente acordo entre o Mercosul e a União Europeia deveria ser analisado e mesmo modificado devido a possíveis divergências entre ele e os padrões americanos de livre comércio.

Imagino o impacto nos negociadores brasileiros e argentinos. Nosotros que nos queríamos tanto. E andamos a espalhar por aí termos rubricado o maior acordo comercial de que se já se teve notícia no Brasil, nos vemos, agora, na contingência de enfiar a viola no saco, diante do valor mais alto que se levanta.

Enquanto isso, o ministro das relações exteriores da França se vê preterido diante de um corte de cabelo do Presidente, que horas depois recebe com pompa e circunstância o Dr. Ross. Não satisfeito com isso, o Presidente brasileiro encampa as críticas do ministro americano e adverte que devemos examinar os pontos de conflito entre o acordo Mercosul- União Europeia com as pretensões americanas. Ouve-se ao longe o coro do Miserere Nobis do Réquiem de Mozart.

Mas, nosso impávido ministro da economia, Paulo, deixa que eu chuto, Guedes, não perde a pose. Cercado de seus negociadores, com caras repentinamente patibulares, anuncia o que sequer havia sido combinado.” Iniciamos hoje as negociações de um acordo de livre comércio com os Estados Unidos”. Deo Gratia.

Recapitulo esses episódios porque são ilustrativos da estrada pedregosa que resolvemos percorrer. Os princípios e objetivos dos Estados Unidos nas negociações de acordos bilaterais de livre comércio estão em estrita conformidade com as diretrizes americanas inscritas na estratégia de hegemonia dos Estados Unidos, dadas a público pelo Conselho de Segurança Nacional.

Toda a movimentação de Trump no comércio internacional é eloquente sobre o tipo de comércio livre a que aspiram os Estados Unidos. Numa primeira etapa, vimos Trump eviscerar a OMC e suas regras universais. Na etapa seguinte, assistimos os Estados Unidos minando os esforços da União Europeia de se constituir em bloco econômico autônomo, capaz de enfrentar o rolo compressor americano. O apoio de Trump ao Brexit e agora a Boris Johnson tem a mesma finalidade geopolítica.

Aos interessados em aprofundar esses temas, recomendo a leitura dos artigos do Professor Fiori, principalmente os mais recentes, disponíveis na Internet. Finalmente - last but not least - a estratégia americana pretende conter o avanço comercial e tecnológico da China nos diversos quadrantes do universo.
A leitora e o leitora que me suportaram até aqui, devem estar se perguntando. E eu com isto? Trata-se de uma briga de cachorro grande. Ledo engano. Os acordos de livre comércio podem certamente afetar de forma nociva sua vida cotidiana como cidadão e a soberania do país.

Talvez, os Estados Unidos tenham perdido o pudor e abriram o jogo com seus interlocutores. Só desta forma se pode conceber a linguagem usada nos documentos oficiais do Conselho de Segurança Nacional. já não há mais a preocupação de revestir as ações de ingerência dos americanos com o,fraseado clássico do “destino manifesto “ ou de defesa do” mundo livre.” Em alto e bom som os Estados Unidos apenas estão interessados em recuperar sua hegemonia econômica e enfrentar os desafios trazidos pela China.

O Brasil, ao adotar uma política externa de aproximação com os Estados Unidos da América torna-se parte ativa deste projeto geopolítico e de indispensável importância no Atlântico Sul, com o desenvolvimento de jazidas petrolíferas no pré-sal da costa brasileira, das descobertas nos países africanos de óleo de boa qualidade, sem falar nas imensas reservas da Venezuela. Estudiosos do tema projetam que até o meio deste século o eixo produtivo do petróleo passará do Oriente Médio para o Atlântico Sul,com evidente importância para os países interessados em assumir posições consequentes.

O relacionamento Brasil-Estados Unidos estará, queiramos ou não, profundamente entrelaçado com essa nova fronteira do século XXI. Dependerá de nossa argúcia diplomática transformar para o bem ou para o mal esta nova geopolítica mundial. Continuarei no domingo que vem.