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País - Artigo

Orgulho e preconceito

Jornal do Brasil LEO LUPI

Em 28 de junho, comemorou-se o Dia Internacional do Orgulho LGBT+, data de celebração às conquistas do movimento de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersexuais. O dia marcou também os 50 anos da Revolta de Stonewall, histórica manifestação LGBT em Nova York após violentas invasões policiais ao bar Stonewall Inn. Vale lembrar que, à época, a homossexualidade ainda era considerada crime no estado de Nova York. Na rebelião, parte relevante da comunidade gay deixou de se esconder e foi às ruas para reivindicar direitos iguais.

No Brasil, há avanços recentes que também devem ser celebrados. Em 13 de junho, o Supremo Tribunal Federal determinou que qualquer discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero seja considerada crime. O país, no entanto, ainda está distante de ser um local seguro para a comunidade LGBT+. Segundo levantamento do grupo Gay da Bahia, o Brasil registrou 445 assassinatos por orientação sexual em 2017. É o país que mais mata transexuais no mundo, de acordo com a Transgender Europe (TGEU). Obviamente, há uma subnotificação de casos em muitos países da Ásia, África e Oceania, em que a homossexualidade pode ser reprimida até com pena de morte. Ainda assim, os números do Brasil são assustadoramente altos, até mesmo dentro da violenta América Latina.

A situação também não é fácil para aqueles que decidem se engajar na luta institucional por igualdade de direitos. Em janeiro deste ano, o deputado federal Jean Wyllys, primeiro parlamentar assumidamente gay no Congresso Nacional, renunciou ao mandato e foi para o exterior após uma série de ameaças de morte. Em entrevista ao programa Conversa com Bial em abril, Jean relatou situações em que foi atacado na rua e constrangido publicamente.

Agora, com a divulgação dos supostos áudios do ministro Sérgio Moro pelo The Intercept Brasil, um casal de LGBTs ganhou destaque na cena política. O jornalista Glenn Greenwald, responsável pela publicação, é casado com o deputado federal David Miranda. Em que pesem quaisquer questionamentos acerca do caso, o fato é que muitos dos defensores de Moro e do governo passaram a atacar Glenn e David com comentários homofóbicos nas redes sociais. O deputado chegou a relatar ameaças de morte à Polícia Federal.

Não estão livres do preconceito nem mesmo figuras como o senador Fabiano Contarato, delegado, católico e assumidamente homossexual, que se elegeu pelo Espírito Santo com as pautas da segurança pública e do combate à corrupção. Após questionar a conduta do ministro Moro em sabatina no Senado, mesmo ressaltando ter diversos elogios à Operação Lava-Jato, Contarato tornou-se alvo de ataques, até mesmo de seus eleitores – a maior parte deles utilizando-se de sua orientação sexual como forma de desqualificação. O senador se viu obrigado a acionar as Polícias Federal e Legislativa após receber um áudio com xingamentos e ameaças de um auditor fiscal de uma prefeitura do seu estado.

Como se pode ver, o Brasil ainda está longe de ser um país em que o Dia do Orgulho LGBT+ possa ser apenas celebrado. A data é, acima de tudo, um marco da luta pelo respeito e pela igualdade. No Brasil, a causa LGBT+ ainda é uma luta pelo simples direito à vida – seja nas manifestações de rua, nos locais de trabalho, dentro de casa ou até mesmo nos corredores do Congresso Nacional.

* Jornalista