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País - Artigo

Brasil, desonra e desesperança. Ou, a bala de prata que não virá

Jornal do Brasil DERMEVAL NETTO

O Brasil virou piada mesmo, ou até passou dela. Não mais somente a de mau gosto, mas a de sabor muito mais amargo. Além daquelas... país que não tem jeito, onde prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme e traficante se vicia...
Mais grave que a anedota é a realidade. Brasil é hoje o país onde os que se afastam da lei são aplaudidos. O sr. Fux, aquele do in Fux we trust, sabe-se que é festejado por onde passa, por sua ação de conivência com a ilegalidade e o absoluto descumprimento do decoro e da norma jurídica, aliado das trapaças da Lavajato. Hoje o que se enaltece é a bravata de sórdidos e desonestos. Entre tantos Toffolis, Barrosos, Carmens, Dodges, Helenos e Villas-Boas. Bolsonaro com sua família de filhos e comparsas milicianos são mais venerados a cada acusação que surge contra eles. Seus militares de gabinete, fantasmas de 64, sinistros e arrogantes cães guarda-costas, são admirados e reverenciados em seus atos de ameaça às regras democráticas.
As revelações do The Intercept sobre a sujeira, as aberrações, as manobras ilegais da Lavajato, são recebidas com entusiasmo e festa por mentes e corações de seguidores do governo, com Moro e Dallangnol sendo cada vez mais incensados pela platéia de um Brasil que já perdeu, quase por completo, os valores da dignidade.
Na tarde do domingo 29 de junho, defensores do ex-juiz ocuparam sete quarteirões da av. paulista, em SP, para protestar contra as denúncias e a favor de seu herói. Um sambista pediu, do alto de um caminhão, aos manifestantes, que o comparassem a Madre Teresa e a Chico Xavier.
A sociedade brasileira, a grande maioria dos que vivem nas grandes cidades, seus centros e periferias, de elites desavergonhadas às classes médias imersas em preconceito e egoísmo e às classes mais baixas, cercadas por milícias e igrejas evangélicas, todas elas sintonizadas na Rede Globo, apoiam e celebram a falta de compostura, ética, decência ou moralidade dos agentes públicos da politica, da farda e das togas e tribunais.
Não importa para essa gente os métodos imorais e ilegais de seus ídolos, mas sim a eficiência de suas ações no impedimento da esquerda, de seus líderes, de seus pensamentos. Esta gente não quer democracia ou justiça, o que deixou de interessar. Lula preso foi o objetivo traçado e alcançado, e tudo deve ser feito para ser mantido, a qualquer custo e preço.
Estamos diante de uma sociedade pervertida à beira da insanidade, que se traduz na naturalização, no aplauso e no incentivo aos crimes contra a justiça e a moral pública. Definida pelo jornalista Luis Nassif como "a nação de bolsomínions", e que o jornalista Reinaldo Azevedo chama de "a fúria dos idiotas" e o jornalista André Rizek chamou de "os bobos da corte". Segundo o jornalista Jânio de Freitas, "estamos vivendo dentro de uma grande mentira".
A escuridão em que entramos não tem data para acabar. À cada denúncia de malfeitos, que imaginamos irá afetar essa estrutura de poder de violência fascista instalado, mais cresce a adesão manifesta com alarde a seus feitos. A ignorância, a intolerância, o ódio plantados nessa gente é veneno inoculado duradouro, sem chance de cura. O golpe está sedimentado nas principais instituições que regem o país, a perversão, o cinismo e a transgressão à lei já tornados cultura e profissão de fé.
A esquerda e os de centro, da cidadania da boa índole e princípios éticos, seguem confusos e perplexos, muitos amedrontados, outros tantos com mobilização descontínua e isolada, à espera por uma bala de prata que venha a ser disparada pelo bem aventurado Pulitzer do The Intercept ou da indignação mundial, a se perguntar... o que está acontecendo com o Brasil?
Pouca ou nenhuma chance de abalar a consciência dessa gente, multidão, de histéricos a silenciosos, coniventes com a farsa, a impunidade e a indignidade, e que segue ávida pelo sangue de Lula e da democracia.
Brasil, não mais somente o país da piada pronta e de mau gosto. Hoje, o país da desonra e da desesperança.

* Jornalista