As coisas da vida

Em 1970, um filme de Claude Sautet, com Romy Schneider e Michel Piccoli, quase arrebatou a Palma de Ouro em Cannes. Visto pelo prisma de hoje, “As coisas da vida” perdeu muito de sua força dramática e talvez não passe pelo filtro dos críticos modernos senão como um açucarado dramalhão. Mas, até hoje recordo com angústia a cena do acidente de trânsito em que Michel Piccoli entra em coma irreversível. Claude Sautet passa e repassa a cena diversas vezes em câmara lenta, onde se vê, fotograma por fotograma, o trânsito da vida para a morte. A vida escorregando a cada capotagem, a cada torção do belo e veloz Alpha Romeo, numa pequena estrada do interior da França. O acidente em si é provocado pelos ingredientes usuais dos acidentes fatais: excesso de velocidade, imprevidência e uma certa impunidade larvar. O Alpha Romeo investe contra um trator, velho e sem recursos técnicos que surge inesperadamente na estrada principal saído de um campo agrícola e literalmente empaca e bloqueia a trajetória de Piccoli que nele se espatifa. O filme mostra as condições terrenas da estrada: má sinalização, falta de manutenção de veículos inadaptados para uma via de velocidade elevada e a imperícia ou desleixo de um condutor diante de uma máquina mortífera.

O filme me veio à lembrança outro dia. Quando soube que o Presidente da República iria ao Congresso Nacional, especificamente à Câmara dos Deputados para uma importante iniciativa, entrei em modo patriótico a esperá-lo. Talvez, finalmente o povo brasileiro seria contemplado com um discurso de união nacional e de uma convocação ao esforço conjunto de reerguer a nação por intermédio de um projeto econômico emergencial que combatesse eficazmente o desemprego e retomasse o investimento público em obras capazes de gerar renda, aumentar a arrecadação e mover as rodas encravadas do desenvolvimento econômico.

Quem sabe o Presidente poderia ter-se inspirado no histórico discurso de Franklin Roosevelt e nos proporia um "new deal” para o Brasil ou em Lyndon Johnson e nos levaria a uma política de maior justiça social ou até mesmo em Barack Obama e em seu inesquecível discurso na Universidade do Cairo quando abordou o problema do ódio entre árabes e judeus. Quem sabe, o discurso do Presidente brasileiro se desviaria nitidamente das amarras do receituário neoliberal tão defendido por seu ministro da economia ou da linguagem divisiva, ameaçadora do Presidente Trump.

Minha expectativa se baseava talvez ingenuamente em que o caminho da estrada civilizatória deve estar plantada na razão e que as divergências eleitorais devem evaporar desde o anúncio do nome vencedor, responsável pelo estrito cumprimento da Constituição e de seus princípios. Infelizmente, a história recente do Brasil parece trilhar caminhos bem mais tortuosos. Quando o candidato derrotado nas eleições de 2014, questionou a lisura das eleições nacionais e posteriormente, como líder de um partido que se dizia social-democrata, induziu seu eleitorado e sua evidente força no Congresso a sabotar projetos e iniciativas do governo eleito, deu-se inicio a uma governança tingida da sabotagem e da deslealdade aos princípios democráticos.

Daí uma divisão da sociedade brasileira desconfortável com seus líderes, descrente da honestidade de seus governos, sequiosa de reencontrar um estadista que nos apontasse um caminho de retomada e não de regressão. Tudo isso pensei e de tudo isso lembrei quando soube que o Presidente da Republica se dirigiria à nação.

Confesso que minha esperança já estava tingida de decepção pois as anteriores propostas legislativas vindas do Planalto e do Palácio da Justiça me fizeram perceber que a lei de talião sobrepujava os ditames da razão. Tanto a lei de porte e posse de armas quanto as propostas de maior tolerância a homicídios cometidos por emoção incontrolável ou coisa que o valha me fizeram reconhecer que descíamos em escada espiral para a barbárie cotidiana. Bastaria consultar as estatísticas de órgãos internacionais insuspeitos e as pesquisas e sondagens Brasil afora para constatar no primeiro caso que o porte e a posse de armas aumentam o risco letal e que quase 80% da população brasileira se opõe a liberalidade extravagante no porte e posse de armas.

E quando o Presidente finalmente desvendou as razões que o traziam ao Congresso, me senti ludibriado.

Não só não havia projetos de uma melhor vida. Havia apenas novas iniciativas para uma rápida morte. Inclusive de crianças nos carros de seus pais afoitos. Coisas da vida?

* Ex-embaixador do Brasil na Itália (e-mail: [email protected])