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Estamos hoje imersos numa nova realidade

Jornal do Brasil TARCISIO PADILHA JUNIOR*

Pioneiros do Iluminismo diziam que, em lugar das regras impostas pelas comunidades tradicionais, a cultura haveria de equipar homens e mulheres com outros pontos de referência e padrões flexíveis. Afirmavam que, nas novas condições, regras entranhadas na tradição eram um obstáculo, e não um auxílio.

Era então necessário liberar as pessoas de velhas crenças, por meio da educação e da reforma social, para moldá-las de acordo com os ditames da razão e as condições sociais racionalmente planejadas. Já no início do século XIX, Wilhelm von Humboldt, fundador da Universidade de Berlim, exprimiu a preocupação de formação humanista da personalidade e aperfeiçoamento pessoal.

Estamos hoje imersos numa nova realidade, em que normas regulatórias e modelos unificadores foram substituídos por uma diversidade de escolhas e por um excesso de opções. Não faz sentido submeter-se à avaliação da sociedade em busca de apoio para as próprias escolhas feitas sob responsabilidade.

Tem valor por si, ou extrai seu valor da esperança de que pode melhorar a qualidade da existência compartilhada?

Sem as práticas democráticas de indivíduos livremente autodeterminados, é impossível enfrentar tendências egoístas conflitivas que observamos atualmente, muito menos haver esperança de resolvê-los.

Deus nos concedeu o dom da vida para custodiar. Assim que ninguém tem o direito de tirar, ameaçar ou manipular conforme seu agrado. Todos os grandes períodos da história apresentam seus desastres e suas vitórias. Na vida comum, deixamo-nos levar pela necessidade de preferir o mal menor.

Deus revela-se raramente de maneira imediata; faz-se pressentir através da mediação das coisas, dos acontecimentos, dos homens e das mulheres; efetivamente por meio de um jogo de reciprocidade, uma dualidade de elementos a ter em conta. Não podemos esquecê-las, ou elas se voltam contra nós.

O Espírito apanha-nos onde estamos, em nossa humanidade concreta. Nada se compreenderá da possibilidade de exprimir acordos, inclusive sobre desacordos, se não assumirmos a nossa diversidade.

Como na própria criação artística, há que deixar vir a inspiração, saber esperar, eventualmente errar. Dificilmente se calcula até que ponto este ideal constitui uma vitória contra a violência das relações sociais.

*Engenheiro