Sofrimento não pode ser normalizado

Está na capa do jornal e na home de internet. A foto de uma mulher desesperada, aos prantos, com fisionomia de dor frequentemente ocupa posições de destaque nos meios de comunicação. Nas notícias desta semana, as imagens de mulheres com expressão de agonia e suplício ilustraram as reportagens sobre a rebelião de domingo em quatro presídios de Manaus. Esposas, mães, irmãs, namoradas dos mais de cinquenta presidiários mortos estavam lá, nos veículos de imprensa, com o sofrimento exposto a quem quisesse se informar sobre os fatos dos últimos dias.

Também na última semana, foi noticiado que o Superior Tribunal Militar decidiu, por onze votos a três, soltar os nove militares envolvidos na ação que assassinou com oitenta e três tiros o músico Evaldo Rosa dos Santos e o catador de material reciclável Luciano Macedo, no Rio de Janeiro. Evaldo ia para um chá de bebê com a esposa, o filho e o sogro, quando teve o carro atingido pelos disparos, que acertaram também Luciano. Na cobertura jornalística do crime, a foto da então já viúva do músico estampava jornais, portais de notícias e redes sociais, como se fosse “O grito” de Edvard Munch, com um expressionismo dos trópicos, sem cor, a brotar em uma realidade distópica, à la The Handmaid’s Tale, série de televisão cujo enredo se passa em um futuro não muito distante, quando as poucas mulheres férteis são transformadas em escravas com a utilidade única de procriar. Essas personagens da série – baseada no livro da canadense Margaret Atwood – não podem demonstrar um milímetro de sofrimento, sob pena de serem condenadas à morte, e vivem das lembranças de uma época feliz, em que eram livres e tinham uma família. Juntamente à foto da viúva, Luciana – na realidade já quase distópica do Brasil de 2019 – estava a declaração dela: “perdi o meu melhor amigo”. Assim como as mulheres do livro, a parte que cabe à esposa de Evaldo agora são as memórias ao lado do pai do seu filho. E a revolta pela libertação dos militares. “Eles debocharam que mim quando vi que meu marido havia sido baleado e pedi ajuda”, afirmou ela a jornalistas no dia do assassinato. Os militares, além de dispararem 83 tiros, debocharam de Luciana.

As mães, esposas, irmãs dos presos de Manaus. As viúvas de Evandro e do catador Luciano, que agora sofrem duas vezes ao saber que os militares estão soltos. E por falar em sofrimento feminino e agressores soltos: por onde andam os três homens brancos que intimidaram e encurralaram uma moça em uma das manifestações de pessoas de bem em São Paulo? A imagem também correu jornais e redes sociais. Para variar, houve gente de bem que culpou a vítima, afirmando que ela estava armada com uma barra de ferro. Cena recente que se confunde com os suplícios da Idade Média, em que famílias inteiras saíam de casa para urrar de prazer ao ver condenadas e condenados serem espancados ou enforcados em praças públicas.

Apesar de cenas como as citadas aqui ilustrarem com frequência as notícias em destaque, cabe a toda a sociedade não normalizar o sofrimento da mulher. Seja ela esposa, namorada, mãe, irmã ou – quase sempre – a própria vítima. Em um país que ocupa a quinta posição mundial no ranking de feminicídio, em que mais de 1,5 milhão de mulheres são espancadas por ano – em 44% dos casos, dentro da própria casa – , de acordo com levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, é inadmissível que autoridades e população não demonstrem indignação ao se deparar com imagens como as descritas neste artigo. Um país em que as mulheres sofrem, adoecem e morrem não tem como andar para a frente.