Liames de um mercado editorial luso-brasileiro

Nos últimos meses tem sido reavivada no Brasil uma discussão veemente em torno do objeto livro. Tal fato se deve em grande medida por acontecimentos que acometeram algumas das maiores redes de livraria no país e que culminam no fechamento de lojas e de demissões em massa. A saber, a Livraria Cultura fechou duas lojas no Rio de Janeiro e outra no Recife. Junto dela, a Saraiva, em situação semelhante, fechou mais de 20 livrarias da rede e a Fnac cerrou as portas de todas as suas lojas no Brasil. Para corroborar este cenário crítico do mercado editorial brasileiro, o editor da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz, publicou a já repercutida Carta de amor aos livros na qual retratou estes últimos “dissabores” do mercado editorial brasileiro.

Com um quadro um tanto quanto distinto do verificado no Brasil, o mercado livreiro português, ao que indicam algumas pesquisas de mercado recentes, obteve um crescimento de 3% no último ano se comparado ao ano de 2017, segundo dados publicados no “Correio da Manhã” do país. É bem provável que tal fato se deva em grande medida pela disseminação cultural da leitura entre a população, mas sem dúvida, há de se considerar determinadas práticas editoriais que exercem papel fulcral no escopo da própria edição e de suas especificidades.

Um bom exemplo pode ser verificado no recente lançamento da obra “O livro no Portugal contemporâneo” do sociólogo e historiador Nuno Medeiros. Publicado na coleção da cooperativa “Outro Modo”, sendo esta responsável pela edição portuguesa do jornal “Le Monde Diplomatique,” O livro no Portugal é o resultado do tato aguçado do editor Nuno Domingos e da investigação profícua de Nuno Medeiros. O formato desta obra reflete muito de sua proposta e, sem dúvida, de sua concepção acerca do objeto livro.

Estruturada para compor os espaços, não apenas, das livrarias, mas os das bancas de jornal, “O livro no Portugal contemporâneo” resulta da concepção de que a edição revela-se enquanto conjunto de gestos que estabelece realidades culturais. Por estas e outras razões, a leitura de “O livro no Portugal contemporâneo” oferece-nos a percepção da formação histórica das empresas de edição 2 portuguesas, isto é, a origem de seus editores, suas memórias e uma vasta recuperação documental que, não raro, carecem a muitos estudos desta natureza. Assim sendo, a obra em questão procura interrogar o universo da edição de livros em Portugal entre finais do século XIX e finais do século XX, pautando-se na confluência de reflexões entre a Sociologia e a História.

Além das questões especificamente ligadas a terras lusitanas, “O livro no Portugal contemporâneo” também se dedica a analisar o espaço transatlântico e o que denomina por “assimetrias entre o mercado livreiro em Portugal e no Brasil”. Por este e outros motivos aqui explicitados e subentendidos é que recomendo fortemente a leitura da recente obra de Nuno Medeiros.

Num momento crítico para a História do Brasil e, consequentemente, para o seu mercado editorial, o manifesto proposto pela escrita de Nuno Medeiros convida-nos a refletir sobre o nosso passado literário, as lógicas próprias do campo editorial, seus engendramentos e as interações existentes entre o editor, o autor e público leitor. É tempo de autocritica e de buscar soluções que extrapolem os espaços convencionais atribuídos à leitura. A exortação está lançada e com ela advém a necessidade de se rever o papel do editor e a ação de um mercado neoliberal cada vez mais avassalador em meio aos setores livreiros de médio e pequeno porte.

*Especialista em História do Livro no Brasil, Doutoranda em História Social pela Universidade Federal Fluminense/Universidade de Évora [email protected]