A marcha dos Peregrinos

Neste fim de mês, que para minha geração recorda tempos avessos,tivemos escaramuças entre o Palácio do Planalto e a Câmara dos Deputados. Dólares e ações se puseram inquietos nas rampas escorregadias da especulação financeira. Lágrimas de crocodilo rolaram por faces falsamente acabrunhadas pelos desenlaces e deselegância entre aliados de sempre,porém desalinhados na etiqueta do poder.Pura afetação, sem consequência maior para o projeto de país que,nesta entrada da primavera, torna-se cada vez mais óbvio, apesar da falta de transparência com que nos é desvendado. Somos um país governado por iluminados,que, por direta ou indireta pessoa, se convenceram que há que nos salvar a alma diante dos riscos de um Brasil recém- liberto das garras do socialismo e do comunismo desagregador de famílias.

Vejam o que se passa no ministério da educação. Não imagino pior exemplo para nossos professores de escolas públicas ou privadas do que o sarrabulho em que se transformou um dos principais, senão o principal, órgão público responsável pela transformação dos jovens deste país em uma nação capacitada a acompanhar os desenvolvimentos criativos que vão surgindo mundo afora. Não temos até hoje um currículo nacional para a formação de nossas crianças no ensino fundamental e médio. Não sabemos se devemos falar da evolução da espécie humana a partir das teses de Darwin ou das sagradas escrituras. Não sabemos se devemos abordar de forma esclarecida o impulso sexual ou deixamos que nossos pré-adolescentes cresçam na forma selvagem do temor e da culpabilidade . Preocupamo-nos que o ENEM seja um instrumento a serviço da cultura marxista sem nos darmos conta que estamos incutindo sorrateiramente nas cabeças de nossos jovens a auto-censura, estágio primeiro da idiotice que os tornará presas fáceis da empulhação livresca de astrólogos travestidos de filósofos. Com uma ajudinha de nosso ministro da economia pretende-se acabar com o ensino superior gratuito,no mesmo momento em que chegam às universidades jovens pobres que devem aos programas sociais terem escapado do lumpem-proletariado que os esperava.

No Itamaraty,historicamente prudente e respeitado tanto no Brasil quanto nos países com que mantemos relações políticas e econômicas,parece ter baixado o ideário da mula sem cabeça - cujas raízes também se encontram no mesmo astrólogo que dá palpites sobre educação - a fazer da diplomacia brasileira o papagaio do português da comunidade diplomática.

Mas ,é na economia que nos defrontamos com os timoneiros desta nau dos insensatos em que nos vemos embarcados. Aqui não estamos diante de um astrólogo,mas de um mágico de Oz. Por mais que se lhe diga que a reforma da previdência não será a galinha dos ovos de ouro, nosso garnisé apenas ameaça se demitir. E cada vez mais seus críticos sequer podem ser considerados de “esquerda “, mas provem dos mais diversos vetores da macroeconomia. É justo dizer que nosso mágico não pode ser responsabilizado por ter adotado essa rota. Ela já vem de antes,concebida pelo Dr. Meirelles que ,agora, como bom neoliberal pragmático ,se especializou em conceder benesses a empresas multinacionais que se instalam em São Paulo. Nosso ministro de turno leva as coisas a um nível de dramaticidade digno não do mágico de Oz, mas do Doktor Strangelove de Kubrick, que despejou uma bomba de hidrogênio na União Soviética. Bom filme.

Porem,o fato mais importante deste fim de mês foi a imensa massa humana que desfilou no Anhangabaú em busca de emprego. Três anos depois de serem implementadas políticas como a reforma trabalhista e a PEC do corte de gastos, temos um crescimento econômico pífio que mal chega a 2% e um desemprego dilacerador que não cede. A exemplo do que ocorre na educação e na política externa, a ideologia que inspira nossa economia parece ser do mesmo teor, apenas um pouco mais maquiavélica pois coloca um dilema para a sociedade brasileira e pretende torná-la compradora da corda com que se enforca.

Os peregrinos do Anhangabaú talvez tenham destoado da paisagem ultramoderna que nos quer vender um governador plastificado. O pior acinte que se poderia fazer aos peregrinos seria confundi-los com a massa subversiva dos anarquistas. No máximo ,os peregrinos apenas pedem um emprego honesto. E é esta confusão de datas e de projetos sociais, esta indiferença por peregrinos,migrantes e imigrantes, que nos fazem levantar muros e cancelas a colocar longe de nossos olhos os destituídos . Mas,nem sempre,como amargamente sabemos, represas represam. O mar de lama não é uma metáfora : é uma decisão política.