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Violência real ou virtual?

Jornal do Brasil VALÉRIA CARDOSO*

A recente tragédia envolvendo alunos e professores das Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano (SP), que resultou em nove mortes e pelo menos 11 pessoas feridas, reabre um discussão sobre os fatores que estimulam gestos extremos desta natureza. Em se tratando dos criminosos serem ex-alunos da instituição de ensino, o primeira aspecto a ser levado em consideração é uma reação a episódios de bullying a que a dupla tenha sofrido. Há também quem associe o crime bárbaro ao fato de os assassinos serem jogadores de videogame, mais especificamente jogos de simulação de tiro na primeira pessoa.

Não se trata defender a proliferação de jogos eletrônicos desta natureza, mas é certo que a influência deles na realização de um crime deste tipo soa como estatisticamente improvável. Tomemos, como exemplo a série de jogos Call of Duty – uma das mais conhecidas do gênero e que já vendeu cerca de 250 milhões de cópias em todo mundo. Afirmar que um jogador das centenas de jogos com este perfil venha a se transformar num serial killer por influência direta seria equivalente a sugerir que um menino que joga games de futebol vá se tornar um astro do esporte sem nunca ter pisado num gramado.

Não se trata, no entanto, de negar aspectos influenciadores da chamada realidade virtual, mas ocorre que essa natureza de estímulos só se torna eficaz à medida em que o mundo virtual seja tão realista a ponto de confundir-se com o real. Mas se isto ocorre de que lado exatamente estariam as mensagens subliminares de violência? Provavelmente nas sociedades humanas. Sociedades estas que promovem discursos de ódio e intolerância em várias instâncias.

Ou seja, nossa cognição (pensamentos) e nosso comportamento são condicionados por estímulos. Se esses estímulos são de natureza violenta é natural que tenhamos pensamentos associados à violência e consequentemente a experiência de sentimentos negativos. Na verdade, uma violência presente em toda parte. Indivíduos que passam por experiências negativas (o bullying na escola, por exemplo), associada à exposição constante um estímulo muito violento que podem até ser o jogos embora esta não seja a única referência num mundo em que a vida humana é banalizada. Os estímulos que condicionam o comportamento de alguém raramente são provenientes de uma única fonte. Trata-se de estímulos que tecem múltiplas combinações. Nesse caso, estamos falando do mundo real desta pessoa, o ambiente a que ela está exposta (hábitos, família, escola, círculo de amizades, entre tantos outros aspectos).

Falando especificamente sobre o massacre da escola paulista, há que se considerar o grau de premeditação do crime, uma vez que os assassinos, embora ex-alunos da mesma escola, não eram contemporâneos e tinham relativa diferença de idade. Possivelmente estaremos diante de uma premeditação e planejamento do ato. O carro alugado, a presença de artefatos explosivos no local da tragédia e o próprio desfecho em que os criminosos tiraram suas vidas reforçam essa probabilidade. Por definição, premeditação é aquela ato pensado, que não guarda relação com aqueles praticados por impulso.

Além disso, um dos criminosos tinha 17 anos de idade. As mudanças hormonais ocorridas durante a adolescência frequentemente levam o jovem a extrapolar suas emoções diante de experiências de teor negativo. Sentimentos como agressividade, depressão e raiva são comuns nesta fase em que pode explodir o desejo de confrontar as autoridades existentes em seu universo, tais como família e escola. Este anseio desafiador pode ter encontrado eco em sua associação com uma pessoa mais velha, mas que não faça parte de suas relações diretas de micropoder.

Assassinatos em série em escolas não faziam parte do cotidiano brasileiro. Nos Estados Unidos, o país onde elas mais ocorrem, o debate gira em torno do fácil acesso que as pessoas têm para adquirir armas de fogo. Coincidentemente ou não, há hoje na sociedade brasileiros setores que desejam rever a decisão do plebiscito sobre desarmamento e flexibilizar a aquisição e porte de armas no país. A perda de nove vidas de forma traumatizante, como a da última quarta-feira, devem jogar uma nova luz na discussão a ser travada, dentro e fora das esferas de poder, sobre que está sendo proposto.

*Psicóloga especializada em terapia cognitiva comportamental