Quantos mais terão que morrer?

Assisti na televisão. E vi o resumo nos jornais televisivos no dia posterior. Marielle Franco estava no desfile da Estação Primeira de Mangueira, campeã do carnaval do Rio de Janeiro, em bandeiras, caras pintadas e outras alegorias. Viva, à frente das baianas, da bateria, entre os passistas, no asfalto ou no topo de um monumental carro? Não. Já estava morta. Morreram ela e seu motorista. Os dois há mais de um ano.

Marielle não se apresentou alegre, sorridente e combativa como era. Marielle morreu muito antes do carnaval chegar.

Quem a conhecia? Os desassistidos que defendia? Talvez somente esses. O carnavalesco da escola? Uma hipótese remota. Os napoleões retintos da periferia? Bem provável. Os chopeiros do Bar Jobi? Um ou outro. A grande maioria, não. Mesmo.

Quantas reportagens em jornais, rádios e TVs, artigos, notas de colunistas alguém será capaz de apresentar antes do assassinato? Marielle não importava. Só incomodava. E, portanto, era ignorada.

A Mangueira foi campeã. Parabéns.

Mas pergunto: o carnaval do Rio precisa de cadáveres de gente de bem, com perdão da expressão, para chegar à glória de um título?

Não quero a Mangueira, a Portela, o Salgueiro ou qualquer outra agremiação valendo-se da necessidade de um mártir para seus propósitos competitivos.

Infelizmente, há décadas, as escolas de samba do Rio são dominadas ora pela contravenção, ora pelo tráfico, ora pelas milícias e ora por todos esses desarranjos legais.

Se a Mangueira estiver livre dessa teia, melhor assim. Menos um "ghost" para atormentar a alma da vereadora impiedosamente fuzilada.

Festejar a vitória da Mangueira é um ato compressível. Coisa de quem vence um Fla-Flu.

Como foi aquele há 30 anos, na inauguração do Sambódromo/escola (saibam que é escola no ano todo fora do Carnaval, como conceberam Brizola, Darcy e Niemayer) com a Mangueira supercampeã.

Desfilou da concentração à Praça da Apoteose. E voltou apoteoticamente. Com o enredo "Yes, nós temos Braguinha".

E hoje temos Marielle. Quem será o próximo ativista, negro ou índio imolado, a se transformar em enredo?

*Jornalista