O ano começa agora

O carnaval passou, verão chegando ao fim. É agora que o ano político começa pra valer. Os dois primeiros meses que passaram não prometem grande expectativa de melhoras, ao contrário, exigirá de todos força e resiliência à onda conservadora que assola o país.

Aqui, no nosso estado, o governador empossado chega a ser caricato com suas faixas no peito, flexões, culto à violência punitiva, obsessão em aparecer em qualquer evento. Governar que é bom nada de relevante foi apresentado. Todo governo sério aproveita o 1º trimestre para reunir seus escalões decisórios, fazer um mergulho profundo de estudos sobre os principais problemas da administração e, assim, elaborar o planejamento estratégico para os 4 anos de governo, elegendo prioridades e políticas públicas factíveis nas diversas áreas de interesse da população.

Temas como segurança, educação, saúde, emprego não passam de difusas propostas, reforçando o perfil neófito do atual governador, sem experiência política e administrativa para tocar um estado em crise e com graves problemas. É chegada a hora, portanto, de deixar de lado toda essa "mise-en-scène" midiática, arregaçar as mangas e trabalhar duro pelo bem-estar de todos os fluminenses. É o que a população espera.

Em relação aos primeiros dois meses do governo federal, percebe-se o presidente ainda prisioneiro do seu discurso eleitoral conservador. Radicaliza o enfrentamento contra seus oponentes, como denunciava antes ser prática da esquerda no poder, e joga o tudo ou nada na divisão da sociedade.

É de se lamentar que se tenha gastado tanta energia em assuntos como o acesso a compra de armas, sem apresentação de uma política efetiva de segurança; questões relativas aos costumes, impregnadas de orientações ideológicas de direita, que dizem respeito somente à vida individual das pessoas e das famílias e não do Estado; definições diplomáticas em matéria de comércio internacional pró-EUA, prescindindo de parcerias com a China, a 2ª maior economia do planeta; culto ao civismo nas escolas em louvor da pátria, mas para honrá-la na luta contra as injustiças sociais de seu povo, este, sim, razão de ser de uma nação.

Apenas duas propostas relevantes foram apresentadas. O recente anteprojeto de lei anticrime do Ministro Moro, que merece discussão aprofundada com a sociedade e não apenas com o Congresso Nacional. Outra, que mexerá diretamente com a vida das pessoas - a reforma da previdência - que exigirá inserir sua discussão no quadro maior da seguridade social para os trabalhadores brasileiros. Idade mínima, cálculo atuarial, aposentadorias no serviço público civil e militar, modelo de capitalização pela poupança do contribuinte, sem participação dos empregadores, serão temas que por certo galvanizarão a opinião pública.

A reforma da Previdência não poderá estar dissociada do contexto das transformações no mundo do trabalho nas próximas décadas. A automatização da produção resultará em menor quantidade de postos de trabalho. Ao empregar menos, as empresas diminuirão encargos sociais, aumentando lucros. A seguridade social constitucionalmente é composta pela Previdência, assistência social e saúde, e o seu custeio não pode recair somente nas costas do trabalhador. Os empregadores - setores privado e público - terão de partilhar essas despesas para viabilizar todo o sistema de amparo social para os que trabalharam por toda uma vida.

Percebe-se nos pronunciamentos oficiais a ausência de pautas voltadas para o enfrentamento da pobreza, da fome, do desemprego, das desigualdades sociais, das políticas eficazes de saúde e educação para os mais pobres. Esses são temas que precisam ser enfrentados já. Para isso, caberá às forças progressistas estruturar uma oposição responsável, propositiva, mas implacável a qualquer ação de governo que represente retrocessos às conquistas sociais do povo brasileiro.

* Arquiteto e urbanista