Poéticas reflexões sobre Deus

Surgido no início do século XXI, o Novo Ateísmo é um movimento de cunho político que defende a ideia de que "a religião não deve ser simplesmente tolerada, deve ser combatida, criticada e exposta por argumentos racionais, sempre que a sua influência surgir", nas palavras do Instagrammer britânico Simon Hooper. Cientistas, biólogos, filósofos e escritores como Daniel Dennett, Richard Dawkins, Sam Harris e Michel Onfray, dentre outros, iniciaram o movimento.

Não sei exatamente a que tipo de influência Hooper se refere, mas há controvérsias. Religião, no seu sentido essencial, significa "religar o homem ao mundo", que para os que creem é nada menos que a porção visível de Deus, constituindo, portanto, essencialidade. Assim entendido, por que combater o pensamento e a prática religiosa, a não ser para fins de dominação? Fazer o homem acreditar na sua orfandade cósmica é enfraquecê-lo e subjugá-lo pela perda da esperança e da fé no sentido transcendental da vida.

Para esses homens das letras e das ciências que se professam ateus, o universo não teria um propósito e a complexa padronização que ocorre na natureza seria simplesmente produto do acaso cego e do imperativo físico. Porém, os místicos afirmam que há rastros de Deus em todo o Universo. Como então apagá-los para corroborar a suposta ausência divina?

O movimento pró-ateísmo, para ganhar terreno no mundo, tenta se justificar como se fosse a crença em Deus e não a distorção religiosa e o fundamentalismo que negam a ciência (que não está dissociada do autêntico pensamento religioso) e são responsáveis por guerras e episódios sangrentos que vêm marcando tristemente a nossa história. Em qual deus acreditava a igreja da Inquisição? Quais princípios do cristianismo Hitler seguia?

Creio que o cerne da crise que hoje vivemos é de fundo filosófico- religioso e não puramente socioeconômico, uma vez que tudo que é singelo está sendo banalizado, a vida banalizada, a morte banalizada, o amor incondicional banalizado, quando a base psíquica de equilíbrio do homem é justamente o amor. Por mais paradoxal que pareça em meio a tanta carnificina praticada ao longo da história da humanidade, a nossa vocação fundamental é para a fraternidade e a felicidade, para os valores espirituais, não materiais. Somos cósmicos e kosmos significa beleza. "Criaste-nos para Vós e o nosso coração vive inquieto enquanto não repousa em Vós", disse Santo Agostinho.

É insano quem empreende trabalho de Sísifo para provar a inexistência de Deus, o que se fosse possível, redundaria na inexistência de si mesmo. Debalde tarefa. Não se prova que alguma coisa não existe. Antes de negar, é preciso afirmar. Quando eu, pré-adolescente, saía de casa pela manhã rumo à escola no verde de Minas Gerais, minha avó me desejava com todo o carinho que tinha por mim: - Vá com Deus, meu filho. Eu já intuía e lhe respondia em tom de brincadeira: - E por acaso dá pra ir sem Ele?

Mais do que nunca reina entre nós (mas não sobre nós) o deus dinheiro. A falsa religião e a política dão-se as mãos e ajoelham-se sem dignidade nos seus altares e gabinetes, e mentem, lambuzam-se, chafurdam na mentira e na imoralidade, e na busca de seus objetivos mundanos cometem toda sorte de torpezas. "O reino de Deus está dentro de você e a sua volta, não em prédios de madeiras ou pedras. Rache uma lasca de madeira e Eu estarei lá; levante uma pedra e Me encontrará".

Mais do que nunca também é preciso crer que só existimos por um ato de verdade e que o sangue nos corre nas veias e o corpo se mantém coeso como fenomenal instrumento do espírito por determinação da verdade. Que o mundo é a objetivação do amor e da verdade. Daí, os males da mentira e do ódio, fontes de negação da vida e do desequilíbrio humano.

Quiçá, na sua via negativa, os arautos do nada acabem extinguindo o mal pela sua prática sistemática, pelo caminho mais difícil, visto que outro parece não haver, que por insuficiência dialética, sejam cientistas ateus ou meros cobradores de dízimo, acabem provando Deus ao invés de negá-Lo, descobrindo, estupefatos, com seus atos a lhes pesar, que o diabo é o coringa do baralho no poderoso jogo de Deus.

A verdadeira religião fere de morte a nossa egolatria. Sobre isso, há uma bela citação, quando bem entendida, que nos soa lá do Oriente:

Deus diz:

Quem Me procura, acha

Quem Me acha, conhece

Quem Me conhece, ama

Quem Me ama, é amado por mim

Quem é amado por Mim, é destruído.

* Jornalista, ex-secretário de Cultura e Turismo de Cataguases