Carnavais

Mulher, ponha a fantasia nas crianças. Vamos ver o carnaval na cidade! Aquela última semana tinha sido dura para ela. Depois de todos os afazeres do dia, ficou na máquina de costura até tarde da noite. Acabara fazendo com dificuldade as fantasias dos filhos.

Para a filha mais velha, uma colombina com os restos do tecido e do véu de seu vestido de noiva. Para o casal de gêmeos, palhacinhos de cetim amarelo, com pompons azuis e vermelhos. Com cartolina dura fez os chapeuzinhos, cones forrados externamente com a mesmo tecido da fantasia, que fixaria na cabeça da crianças com um elástico bem fino passando por baixo do queixo.

Ficara exausta com todo aquele trabalho, mas agora que as crianças estavam vestidas se sentia recompensada, os filhos estavam lindos com as fantasias que tinha preparado. Esperaram por um bom tempo a condução. Nesses dias de carnaval nada funcionava direito. O relógio da Mesbla tocava 4h quando desceram no Passeio Público. O pai segurava firme as mãozinhas dos gêmeos; a mãe, a da mais velha. Seguiram até a Cinelândia. Ali pelas escadarias do Teatro Municipal se acomodaram.

Os gêmeos ainda não tinham completado 5 anos. O menino nunca vira tanto gente em sua vida. No início ficou assustado. Quando um grupo fantasiado de caveiras veio na direção deles, refugiou-se atrás da mãe. Não estava gostando nada daquele passeio.

Como os pais não deram atenção a seus pedidos, desistiu de choramingar. Protegido pelos corpos do pai e da mãe, pôs-se a brincar sozinho, catando os confetes que estavam no chão. Entretido, afastou-se alguns metros da família no momento em que passava um bloco arrastando multidões. Confusão, empurra-empurra. Quando a onda de gentes passou, estava só, tinha-se perdido da família.

Andou um pouco mais sem rumo, logo estava no meio da Avenida dentro de um outro bloco que passava. Pânico. Uma mão segurou a sua. Olhou para cima. Preta velha, fantasiada de baiana, o olhava com carinho. A senhora percebeu o desespero do garoto e tentou acalmá-lo com o melhor sorriso. Puxou-o para si, abraçou-o com calor e saiu rodopiando no ritmo da bateria.

O abraço bem junto ao peito farto lentamente foi acalmando o menino. Sentia-se protegido por ela. Estava começando a gostar daquele passeio. As outras baianas do bloco, com suas saias rodadas giravam sem parar, tal como os peões com que brincava no seu quintal. A bateria atrás não sossegava. Cada pancada seca e redonda dos surdos era respondida na hora pelas vozes afinadas dos taróis, cigarras do verão. O repique dos tamborins levantava e alegrava o ritmo da batida em contraponto à chorosa cuíca.

As cores: azul, branco, vermelho, verde, prateado, dourado. O brilho que cega os olhos tal fogos de artifício. A exuberância. A ousadia. O amor às cores pelo resto da vida. Agarrado no corpo da velha baiana lá se foi o menino pela Avenida. Não sentia mais medo. Exaustos, muitos se sentaram no meio fio sob a marquise para beber e descansar um pouco.

O menino, adotado provisoriamente pelo grupo, intuitivamente sabia que era gente sua aquele punhado de homens e mulheres e que não era preciso ter medo deles. Os tambores se colocaram novamente a rufar. Todos se puseram de pé a sambar e foram se afastando. Onde estava a baiana, velha mãe negra? Perdera-a de vez. Braços fortes o suspenderam do chão. Recebeu o abraço protetor do pai. Mãe e irmãs aflitas choravam com o seu retorno pela mão do pai.

São três horas da madrugada e ele preso dentro dessa cabine. Meu Deus! Por que aceitara ser jurado na Marquês de Sapucaí? A cada Escola que passa sente uma vontade danada de seguir com ela, para talvez, quem sabe, reencontrar a velha baiana, bela e essencial memória de sua infância.

* Arquiteto e urbanista