Além dos sentimentos morais

A principal variável para o desenvolvimento econômico é o investimento, sendo essencial a discussão prática de como o induzir. Algumas correntes vêm exibindo a crença numa espécie de "morality led growth", na sensação de confiança na idoneidade da gestão pública. No caso do Estado do Rio isso ganha a opinião pública pela tese dominante de que a crise do Rio se deveria à corrupção sistêmica supostamente.

Julgo discutível a correlação. No geral, o fundo da argumentação segue a teoria neoinstitucionalista. Aquilo de que o decisivo é ter regras claras, exibir alguma forma de certificação (selo) de bom ambiente de negócios. Contudo, a crise no Rio não se deu por fuga de investimentos por falta de segurança jurídica. Caso seja seguida essa visão, há sério risco de o senso comum incorrer em um otimismo exagerado outra vez e que ignora a complexidade do problema.

Especificamente, poderia se recair no erro de resumir a questão a se acreditar que mudou a gestão e a "fadinha da confiança" estimulará gastos de investimento. Isso baseado que as expectativas têm maior importância do que políticas dirigidas, e que tais expectativas se sustentariam num bom comportamento dos gestores públicos e nas garantias que oferecem ao empresariado. Mas não há tais automatismos.

Os agentes se movem por interesses concretos e exigem esforços diretos e permanentes de coordenação decisória. O legado de uma gestão se refere aos avanços institucionais que estruturam para executar um planejamento estratégico e gerar mecanismos de indução efetivos frente ao cálculo empresarial. Esse é o desafio em uma região que tem pouca reflexão organizada e um impasse no modelo histórico de desenvolvimento, como o Rio.

Diante disso, o desafio é mais se ter clareza sobre a controvérsia fundamental. Há uma divisão entre os que param os estudos e análises na explicação de economia como uma ciência da escassez e da poupança guiada por sinalizações sob dada inércia dos mercados; e os que passam a compreender que é a ciência dos recursos ociosos e do gasto, guiada por ações políticas que visam à reestruturação dos mercados.

O primeiro grupo se restringe a apontar que bom mesmo é a austeridade, o que reduz o problema a buscar custos mínimos. O segundo grupo alerta que superar ciclos viciosos é o que realmente importa, ressaltando que o problema sempre é do padrão de acumulação.

Para a população, essa disputa cognitiva está traduzida na capacidade de definir prioridades. O primeiro defendendo que a boa defesa do patrimônio público é cortar e gastar o menos possível. O segundo, defendendo que essa defesa depende de valorizar esse patrimônio ao ativar planejamentos de graus superiores na máquina pública. Reabilita a perspectiva voltada essencialmente para a inovação em detrimento da mera contabilidade aparente.

Cabe se escolher entre tratar economia como a ciência de "fazer economias" ou a ciência de gerar emprego e renda ampliada. Enquanto o povo ficar satisfeito com promessas de que "economizando" tudo se acerta, o milagre econômico cada vez estará mais distante de uma possibilidade real. E isso será fundamental para o horizonte de possibilidades para o Estado do Rio.

Nesse sentido, aspectos-chave são ligar uma agenda de ciência e tecnologia com metas de melhoria dos padrões de vida da população, e articular o fomento econômico com uma agenda social de valorização da riqueza popular. Esse convite se faz com a criação da Rede Pró-Rio, que se dispõe a contribuir para uma reflexão organizada.

* Professor FCE/Uerj e pesquisador Ierj