As placas de Marielle

O deputado Rodrigo Amorim (PSL) emoldurou parte da placa quebrada de Marielle Franco no seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio. O deputado estadual mais votado no Rio de Janeiro justificou seu ato enfatizando que "o fragmento da falsa placa é o símbolo da restauração da ordem no Rio de Janeiro". A justificativa foi a mesma dada por ele e por Flávio Bolsonaro no ano passado quando a placa posicionada sobre a placa original de Marechal Floriano foi removida e quebrada. O deputado alegou que a placa do seu gabinete estava localizada num espaço privado em contraposição à desordem protagonizada por deputados de esquerda que fixaram placas de Marielle nas portas dos seus gabinetes da Alerj e que, segundo Amorim, tentavam transformar os corredores do Legislativo em local de doutrinação ideológica.

Não há como negar que a disputa em torno da placa de Marielle ilustra de forma bastante pedagógica a natureza política e pública dos debates de gênero, raça e classe. Quando os candidatos Rodrigo Amorim e Daniel Silveira, homens brancos do PSL, quebraram a placa de Marielle, eles estavam, de fato, reestabelecendo a ordem, mas uma ordem que embora não-nomeada e tida como isenta de ideologia é bem específica: branca, masculina e heteronormativa. Por meio das suas performances, eles estavam restaurando de forma extremamente violenta a ordem desigual que nos constitui desde tempos coloniais e desautorizando as novas sinalizações de gênero, raça e classe inscritas na placa de Marielle.

A disputa elucida com clareza a disputa entre dois Brasis forjados pelo projeto colonial. De um lado, o Brasil oficial, público, daqueles que têm sua humanidade plenamente reconhecida ou "a zona do ser" nos termos de Frantz Fanon e de outro, a "zona do não-ser", dos corpos negros desumanizados, dos Brasis que nunca puderam contar suas histórias e que tiveram suas subjetividades sistematicamente negadas. Nesse sentido, "desordem" nas visões de Rodrigo Amorim e Flávio Bolsonaro, corresponde justamente ao movimento de embaralhamento dos binários que nos estruturam: público e privado, masculino e feminino, branco e negro.

O gesto brutal de quebrar a placa da quinta vereadora mais votada no Rio de Janeiro, tinha como audiência, sobretudo, corpos negros, pobres, favelados e transexuais, não autorizados a ocupar os espaços convencionais de poder, mas que, ainda assim, se arriscam a adentrar nesses espaços. O recado era claro: vocês serão devolvidos à "zona do não-ser" seja por meio de morte física, como no caso do assassinato de Marielle, seja por meio da morte simbólica presente nas inúmeras tentativas de encerrar seu luto a qualquer custo. A mensagem para os ditos "cidadãos do bem", era outra. Esses eram incitados a participarem ativamente e cotidianamente da manutenção das fronteiras entre as "zonas do ser" e a "zona do não-ser", se preciso recorrendo às armas e confiantes de sua impunidade, assim como fazem os milicianos.

De fato, tal chamado vem sendo entendido e atendido, como bem nos mostram os mais recentes casos de corpos negros sendo barbaramente executados no Morro do Fallet ou estrangulado no supermercado Extra. Claro está que a placa quebrada emoldurada imobiliza e autoriza essa ordem cindida, onde, tal qual no quadro, corpos negros são cortados, mutilados, privados de estatuto político e de plenitude.

* Professora e diretora do Instituto de

Relações Internacionais da PUC-Rio