Assusta e cheira a limpeza racial

Segundo Thomas Hobbes (1588-1679), "a pobreza é a condição natural do homem" e não um provável dano colateral provocado pelo capitalismo. Mas não seria admissível que o sistema, cada vez mais draconiano, causa exclusão em massa, que no fim pode ser traduzida por pobreza? A apropriação do mundo e das coisas como se dá é um ato arbitrário, não um direito natural, protegido por um sistema legal pra lá de tendencioso. Postada no Facebook, a imagem de uma cédula de dois reais traz escrito o seguinte: "O Direito Civil serve para que os ricos roubem os pobres. O Direito Penal impede que os pobres reajam". No dia a dia é o que rola mesmo. Pobre só conhece a justiça quando ela lhe cai no lombo.

De acordo com o Banco Mundial, 46% da população do planeta vive com menos de US$ 5,50 por dia, na linha da morte de uma situação de extrema pobreza. Aqui, um quarto da população, em 2016, estava abaixo da linha de pobreza traçada pelo mesmo banco, vivendo com menos de R$ 18,24 por dia, equivalentes a uma renda mensal de R$ 387,07 por pessoa em valores daquele ano. Por outro lado, os bancos Itaú, Bradesco e Santander lucraram R$ 60 bilhões em 2018. "Essa tendência perversa à desigualdade é desastrosa para o futuro da humanidade", disse o papa Francisco durante visita à sede da ONU, em Roma, em 14 de fevereiro.

O que fazer com tanta pobreza espalhada pelo planeta? Ela não representa uma ameaça crescente ao luxo da elite mundial? Até que ponto essa situação será sustentável? O FMI ponderou em janeiro, em Davos, sobre a insatisfação social que se alastra no mundo, alertando os chefes de governo sobre possível "escalada de riscos políticos" (leia-se rebeliões), e Winnie Byanyima, da ONG Oxfam Internacional, avisou que "o abismo que aumenta entre ricos e pobres penaliza a luta contra a pobreza, prejudica a economia e alimenta a raiva no mundo", onde 26 bilionários têm mais dinheiro que as 3,8 bilhões de pessoas mais pobres. Como resolver essa diferença abissal? Como incluir essa população? Ou como excluí-la de vez, fazendo de conta que ela não existe, apesar das ponderações do FMI e da Oxfam, apesar da raiva que cresce no mundo?

Em entrevista à revista "Veja", o professor e biólogo americano Paul Ehrlich, autor de "A bomba populacional", declara: "Fiz um exercício matemático segundo o qual a Terra seria um lugar bom para viver com dois bilhões de habitantes. O equilíbrio natural seria assegurado se o mundo tivesse apenas 30% dos habitantes de hoje. De acordo com meu estudo, todos seriam bem alimentados e educados, viveriam em cidades vibrantes, teriam bons empregos e não mais ouviriam falar no desaparecimento da camada de ozônio". Em 2011, em entrevista ao G1, bateu na mesma tecla: "Precisamos diminuir a população do mundo ou vamos chegar ao colapso. Não é possível ter sustentabilidade com aumento da população".

Numa conferência na Califórnia (TED 2010), em fevereiro daquele ano, Bill Gates taxou: "O mundo hoje tem 6,8 bilhões de pessoas. E está indo para cerca de nove bilhões. Se fizermos um excelente trabalho com novas vacinas, saúde, serviços de saúde em reprodução, nós podemos baixar isso para, talvez, 10 ou 15 por cento". Ehrlich e Gates deixam claro que a questão da sustentabilidade do planeta, para os donos do dinheiro, passa pela diminuição da população (o que é uma falácia), e não pela inclusão dos marginais do sistema (pobres), o que nos remete aos ideais de eugenia, ou mais claramente, de limpeza racial, ideais esses que estão vivíssimos em corações e mentes da turma encastelada no topo da pirâmide social e de seus capatazes, de lá e de cá.

Cá entre nós, o projeto da Lei Anticrime de Sérgio Moro pretende que a polícia possa matar licitamente em situações de "escusável medo, surpresa ou violenta emoção". Muito subjetivo. Assusta e cheira (ou fede?) a limpeza racial, a extermínio, pura e simplesmente, como desejam e proclamaram em alto e bom som no clima das eleições os habitantes da casa-grande. Desenha-se o Estado totalitário e as consequências se farão sentir, pois esse Estado apropria-se do direito de matar (e mata) indiscriminadamente quem não reza na sua cartilha, como nos ensina a história. Hoje é um bandido, amanhã, um homem de bem. Não estaremos indo rumo a esse cenário de enfrentamento que ameaça o Estado de Direito e aproxima o Brasil de uma nova ditadura, essa muito mais perigosa? Sem falar no desmonte ou esvaziamento do nosso Sistema de Seguridade Social, que aviltará ainda mais e colocará em risco a vida de milhões de necessitados.

Num vídeo de 1999, Jair Bolsonaro diz, ipsis litteris, parecendo pregar uma "Solução Final", que através do voto não vai se mudar absolutamente nada neste país, que só vai mudar quando partirmos para uma guerra civil aqui dentro, fazendo um trabalho que o regime ainda não fez, matando uns trinta mil. Totalitarismo puro. Guardadas as devidas proporções, os déficits cognitivos etc., fica a pergunta: é essa a orientação, senhor presidente?

* Jornalista, ex-secretário de Cultura e Turismo de Cataguases