Brumadinho, cidadania e etica

O Brasil ainda tenta entender e digerir o que se passou em Brumadinho. Mas não passou ainda e vai demorar a sarar. A comoção segue e persegue cada notícia de vítimas encontradas, tantas outras sumidas que tiveram suas vidas interrompidas, parentes desconsolados, sobreviventes nus, sem memória, animais com suas histórias ali ligados a cada cidadão da região, uns que sofreram outros que foram sacrificados.

Em meio a toda a comoção pelo drama no rastro da tsunami de lama, a emoção pelo empenho dos que dão seu sangue para dar algum sentido aos familiares órfãos de seus entes, aqueles de quem se despediram de manhã e simplesmente sumiram de suas vidas. A angústia dos celulares que já não respondem, aquela última visão de gente querida que empreendeu fuga para o lado errado.

Tudo parece seguir um roteiro triste, mas natural. Uma mesma energia emocional que envolve os que lutam no local e nós que acompanhamos de longe com respeito e consternação. Mas em meio a tudo isso, vão surgindo já outras vozes que destoam dessa energia solidária. Uma dessas vozes chamou atenção, um tuíte de Evandro Negrão Jr., do Partido Novo, ao lamentar rapidamente a dor do desastre em Brumadinho, mas para, em seguida, exortar todos a não demonizarem a Vale para que a empresa volte a produzir. Seu texto exalta a grandeza da empresa, reconhece a necessidade de multá-la, mas algo naquelas poucas linhas incomoda quando lemos com a isenção que só a violência da tragédia nos permite. O texto tem poucas linhas, mas que revelam muito do pensamento de nossa sociedade ao se ver sintonizada com trabalho e produtividade. Um utilitarismo pragmático que encontra na frieza das decisões indicadas pelo “mercado” o modo certo de conduzir uma sociedade. Evandro lembra que sem a Vale, não haverá o minerio que permite fabricar os bens de consumo que movimentam a economia e tanto nos atraem. Há um “que” de ansiedade pela continuidade, uma manutenção do “status quo” que ele deixa escapar pelas palavras, uma pressa para que tudo volte à normalidade nos negócios, o mundo que realmente importa para aqueles que criam suas realidades nas salas de reuniões. Merece destaque o fim do texto, quando fala da Vale “voltar a funcionar asap” numa linguagem meio besta e fora de contexto para a situação. Uma espécie de comunicação célere que cai bem nas mensagens entre gestores, staff e parceiros comerciais para mostrar eficiência e urgência, mas que não se legitima no mundo real fora das planilhas, onde erros custam vidas que as indenizações choradas não devolvem. Essa mente das corporações tem penetrado nossa sociedade, mas é importante considerar que deve coexistir em harmonia com outras necessidades da sociedade.

A humanidade se orgulha, pois não se sujeita mais a dogmas religiosos, mas se submete ao novo mito do mercado que nos controla ao comandar as finanças, a produção e atrair-nos para o ciclo de consumo (restrito a poucos que o mercado seleciona através da meritocracia). Esse mercado tem mantras que se repetem todos os dias entre os executivos das empresas dentre os quais a geração de valor e a remuneração aos acionistas; fazer mais sempre com menos, máximas de um mundo de disputas onde “vence o melhor”, aquele que sobreviveu engolindo o outro. Um jogo humano autofágico. Uma obserssão pelo planejar cenários que excedem os limites de tudo e da própria natureza. Toda uma dinâmica que visa a obtenção de prêmios e bônus aos envolvidos. O mundo real acaba sendo uma mera oportunidade para ganhar “share”, sendo todos os limites intrínsecos da natureza, vistos por gurus-economistas como meras externalidades – efeitos colaterais da produção, que devem ser contornados com bons advogados, eficiente comunicação e colaboração das autoridades para que a vida das empresas siga “business as usual” como gostam de dizer.

Hoje o capitalismo vive um momento que requer ainda mais atenção, pois os postulados neoliberais têm “vendido” esta modalidade livre de regulação como única viável para gerir a economia.

Um Brasil cheio de recursos e com gente querendo produzir, pode ser presa fácil de interesses que apenas atendem a poucos e de forma efêmera. Os discursos correntes de muitos de nossos formadores de opinião insinuam que erros como os de Brumadinho devem ser relevados se a contrapartida for a geração de empregos e o desenvolvimento econômico. Seria aceitável, se houvesse a preocupação de trilhar esse caminho em companhia da mãe-ética que deve estar viva em cada um de nós. Terceirizar nossa sensibilidade e razão ética a políticos e empresários é entregar-nos a um mundo onde a abstração permite o acúmulo em detrimento da carência, o excesso sem preocupação com a falta. São convicções quase patológicas que toleram mapeamentos de risco e fazem vista grossa para laudos para inglês ver. Quando aquiescemos a tuítes como o do Evandro, ficamos entregues, delegando nossas vidas a um mundo específico, seleto, abstrato e desumanizado, onde não há lugar para todos, um mundo que cultua o ter e principalmente quem o proporciona. Algo vazio e frágil que não alimenta nossa essencia humana mas que vicia como tudo que nos faz mal, tão mal que acabamos turvados em nossa capacidade de avaliar e intuir aquilo que acessa nossa habilidade intrínseca de sentir, própria do humano do animal e do natural, algo que torna possível o viver conectado em rede, num movimento harmônico com o que nos cerca, livres de ferramentas elaboradas que contagiam insensibilidade e cinismo. Sim, devemos ser sensíveis e assim fiscalizar para dar limites éticos a liberdade neoliberal pairando sobre nós; só assim asseguramos nossa própria liberdade, aquela que não compramos, já nasce conosco. Nossos corações devem ser maiores que modelos econômicos, assim resgatamos a dignidade e exercemos nossa cidadania, aquilo que perdemos quando pensamos apenas no tal mundo melhor de Evandro onde só fabricamos geladeiras, carros e aviões, se deixamos a cadeia produtiva gerar lucro as custas de tsunamis de lama a assombrar nossa passividade in(conveniente).

* Bacharel em Direito (Uerj), graduando em Filosofia Ética (Uerj) e mestrando do Programa de Meio Ambiente da Coppe/UFRJ