Mar de lama e a flor de Picasso

O rompimento da barragem na mina Córrego do Feijão, em Minas Gerais, despertou perplexidade, tristeza e trouxe à tona deformações viciosas em diferentes âmbitos. A primeira a emergir é o fato de se configurar como tragédia anunciada. Na lógica do lucro desmedido a qualquer preço, optou-se por utilizar tecnologia obsoleta no campo da siderurgia. Barata, porém insegura, as barragens foram construídas com técnica de alteamento por montante, visando minorar custos, ainda que o montante requerido para ampliar os ganhos seja pago com o mais precioso bem, a vida. O desastre similar de Mariana, ocorrido em espaço de tempo tão curto, demonstrou todo seu potencial destrutivo e as consequências nefastas. Ainda assim, a devastação de Bento Rodrigues, que inclui a contaminação de um dos rios mais importantes da região, não foi tomada como exemplo daquilo que não deveria se repetir jamais. Paradoxalmente, mesmo diante da possibilidade de prejuízos tão incomensuráveis quanto irrefutáveis, padrões e protocolos de trabalho foram mantidos.

Outra deformação é a compreensão equivocada dos conceitos relativos à ecologia e a principal deturpação daí decorrente. Em muitas análises relacionadas ao “acidente”, inclusive na fala do diretor da Vale, é nítida a separação estabelecida entre o que seria a extensão dos danos causados ao ambiente e aos humanos propriamente, como se estivéssemos considerando a existência de dois compartimentos estanques. No entanto, o homem é parte do ambiente em que vive. É, dentre muitos outros, um dos elementos que compõem do planeta. Não se trata de preciosismo científico, mas tal compreensão é fundamental para a sobrevivência de todas as formas de vidas. É a partir dela que se torna possível construir uma relação de pertencimento à natureza, tão primordial para a proteção do planeta. Por outras palavras, é preciso assimilar que o homem integra um conjunto de seres viventes e que qualquer interferência repercutirá globalmente. Todos se afetam de forma mútua porque integram um grupo uno.

Macaque in the trees
Arte (Foto: Arte)

No mar de lama, o que se perde além das preciosas vidas humanas, são animais silvestres, domesticados, muitos dos quais constituem base da economia local e do sustento familiar, como o gado leiteiro e aves, rica vegetação e enorme fauna e flora microscópica, que, embora invisível, é condição para equilibrar os ecossistemas. Dessa forma, além dos numerosos óbitos declarados e centenas de desaparecidos, é preciso considerar que há milhares de seres vivos soterrados pela ganância e irresponsabilidade de tantos outros, estes sim, exclusivamente humanos. Sejam aqueles diretamente responsáveis pelo evento, tais como os dirigentes da empresa mineradora, sejam os que possuem efetivo poder decisório, como governantes que defendem a transigência das leis ambientalistas, ou aqueles que simplesmente cerram os olhos e tentam aparentar normalidade diante de riscos iminentes. Minas Gerais revela em seu nome o histórico de uma cultura extrativista. Infelizmente, nunca se primou por práticas efetivamente sustentáveis ao longo dos anos consecutivos de exploração.

A errônea separação entre danos humanos e ambientais é, ao mesmo tempo, reflexo desta prática e complicador para o desenvolvimento de condutas sustentáveis. A ideia de sistematizar ações que contemplem as necessidades de uma geração sem comprometer as futuras, base da construção do conceito da sustentabilidade, data do século 18, com Thomas Malthus. O demógrafo postulou que a população crescia em progressão geométrica enquanto os meios de subsistência, em progressão aritmética, ocasionado, assim, desequilíbrio que poderia resultar em colapso, caso não fossem adotadas medidas para limitar o aumento da população. O termo sustentabilidade começa a ser delimitado a partir da “Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano”, realizada em Estocolmo, 1972. Hoje, conforme registram documentos oficiais da ONU, aspectos culturais e sociais são considerados requisitos para um mundo verdadeiramente sustentável.

Assim, mais que nunca, há que se pensar nas perdas culturais. Algumas concretas, como os conjuntos arquitetônicos típicos das Gerais. Outras, impalpáveis. Nem por isso são menos importantes. São os patrimônios imateriais e o capital simbólico que se enterram para sempre nas profundezas. São memórias de infância, hábitos cotidianos, histórias de vidas inteiras ameaçadas pelo lamaçal. Ruas, esquinas, casas, e as lembranças a elas atreladas, apagadas para sempre... A tragédia poderá ser retratada de muitas formas. Talvez algum dia, um artista inscreva a dor das terras mineiras. Assim como Picasso o fez, em Guernica, ao pintar o bombardeio da cidade durante a Guerra Civil Espanhola, tornando-se uma de suas criações mais célebres. As figuras bicolores decompostas em formas geométricas e pontiagudas traduzem a violência cortante e os efeitos devastadores do conflito que praticamente destruiu a localidade. A obra já foi exibida na 2ª Bienal de São Paulo. Hoje constitui o acervo do Museu Reina Sofia, na Espanha. O artista só permitiu que para lá fosse após o fim da ditadura de Franco.

O quadro é uma alegoria da barbárie em que pessoas e animais gritam o sofrimento lancinante e uníssono. Tal qual Mariana ou Brumadinho, Guernica era uma cidade indefesa, que se viu atacada sorrateiramente e sem possibilidade de reação. Dos 7000 habitantes, cerca de 2500 pessoas foram mortas ou feridas. Em meio a tanto padecimento e caos, ao centro da pintura, pode-se ver uma flor solitária. Talvez um símbolo de esperança. Ainda não há flor no lamaçal das Gerais. E jamais haverá enquanto os governos forem omissos e a iniciativa privada visar o lucro acima da ética e dos valores humanitários. Por enquanto, restam o desejo de que a dura lição tenha sido, enfim, aprendida, e a flor de Picasso...

* Mestre em Teatro e doutora em Ciências